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O TEMPO DE FATO

Não somos especiais ou superiores!

Prof. Evandro Ricardo Guindani Universidade Federal do Pampa - Unipampa

Às vezes percebo que muitos humanos esquecem que antes de mais nada são animais… É isso mesmo, a animalidade é a nossa essência mais profunda e não aquilo que idealizamos ou pensamos sobre nós mesmos.

A racionalidade, a capacidade de produzir cultura, transformando a natureza, deu ao ser humano uma certa ilusão de que ele tem uma missão especial aqui neste mundo. E daí surge a criação da religião… Pela religião, o homem cria um mundo pós-morte e pré-nascimento, com discursos que idealizam um ser especial, superior aos outros seres vivos. 

Há alguns anos, comecei a gostar muito de conviver com animais de estimação como cães e gatos. Observando-os percebo a simplicidade da vida, comer, dormir, miar ou latir, esta é a rotina destes seres amáveis…

Na correria do dia-a-dia, vamos construindo um sentido para as coisas, porque não conseguimos lidar com a realidade dura como ela é… Alimentamos crenças de que o sentido da vida está nisso ou naquilo… Que estamos vivendo para cumprir tal ou tal missão… Religiões, crenças e filosofias de vida se tornam um cardápio de explicações que sempre colocam o ser humano como alguém especial…

Por que nós humanos precisamos ter uma missão aqui na terra? Por que nao aceitamos apenas viver um dia após o outro, bem vividos, bem aproveitados, vivendo apenas um dia de cada vez? Porque precisamos alimentar todo tipo de explicação abstrata e espiritual para aquilo que fazemos? Se alguém morre de forma inesperada era porque tinha uma missão a cumprir em outro lugar ou que sua morte foi um sinal para alguem ou alguma concepção de mundo. Por que apenas nao aceitamos aquela morte como uma fatalidade, assim como morrem formigas quando pisamos em cima delas?

E paralelo a isso vamos projetando esta necessidade de dar um sentido para a vida, em políticos, personalidades e líderes, a tal ponto, que em época de eleição, chegam a afirmar que determinado candidato é enviado por “deus”, que loucura…

Se um gigante de 500m de altura olhasse para o lugar onde estamos e vivemos, o mesmo teria a mesma visão que temos de formigas correndo de um lado para o outro, perto de seu formigueiro… E perceberia que diariamente humanos morrem e são sepultados, assim como nos deparamos com insetos mortos pela rua…

Por que nós precisamos de um sentido maior e especial para a vida do que esses insetos e outros animais?

Por que nos sentimos tão especiais e superiores, a ponto de acreditarmos que estamos ligados a divindades, onde o mundo terreno, real e material se vincula a um mundo invisível, espiritual e invisível… Eu diria simplesmente assim: “coisas da nossa cabeça”...

O ser humano cria suas crenças que se tornam verdadeiras “jaulas morais”, que nos fazem inclusive nos afastar da nossa natureza animal… Casamento, profissão, papéis sociais,  e todas as outras produções culturais, ilusoriamente nos caracterizam como humanos, mas em grande parte nos “desanimalizam”, ou seja, nos transformam em criaturas falsamente superiores…

Reflita comigo: Como poderíamos aprender com nossos animais (irracionais) a sermos simplesmente nós mesmos? Como poderíamos apenas sentir a vida e vivê-la, sem precisar nos escravizar com tantos ideais, metas, princípios, valores, construídos socialmente?


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