pesquisa dos joaçabenses Antonio Carlos Pereira e Luciana Reese Pereira Tesser
A criação dos Municípios de Joaçaba e de Chapecó, em 25 de agosto de 1917, trouxe avanços importantes para o Oeste de Santa Catarina. Naquele tempo, os prefeitos eram nomeados pelo governador, e ele precisava de alguém para pacificar a região. Assim o “Coronel” Manoel do Nascimento Passos Maia protagonizou algo inédito ao ser o prefeito de dois municípios simultaneamente.
As novas unidades político-administrativas permitiram a definição da região como parte integrante do contexto catarinense provocando a necessidade urgente, por parte das autoridades constituídas locais e estaduais, de ações efetivas para colonizar a região e a transferência dessas ações para a iniciativa privada. A colonização da região iniciou com as primeiras manifestações para receber ações e empreendimentos de companhias de colonização, através da venda e/ou doação de terras por parte do governo, e para isso eram necessários empreendedores pioneiros.
O que justifica estas linhas, no entanto, é o insólito da história: Passos Maia, um desses pioneiros, foi o 3º prefeito de Chapecó nos anos de 1922 a 1929, e entre os anos de 1926 e 1930 foi prefeito de Joaçaba. Ele também voltaria a ser o gestor municipal desta a partir de 1936, o que pode ser facilmente constatado nas páginas 55 do Álbum do Cinquentenário de Joaçaba (Queiroz, 1967, Ed. do Autor) e 99 do Livro do Centenário de Joaçaba (Bilibio, Queiroz, Ferraz e Pereira, 2017, Ed. Unoesc).
O “Coronel” Passos Maia não era militar de carreira, consta que o título era honorífico, como era costume antigamente. Eu só fiquei sabendo da informação de que ele governou Chapecó e Joaçaba ao mesmo tempo pelo livro “Metalmorfose em Joaçaba” (Souza & Corrêa, Ed. Insular, 2013). Então, senta que lá vem história: vamos ao assunto.
Em 1917 o médico e farmacêutico Manoel do Nascimento Passos Maia e seu irmão Agilberto Atílio Maia foram sócios do coronel Ernesto Francisco Bertaso, todos gaúchos, como narra Marco Aurélio Nedel no livro "Como Surgiu Chapecó" (Ed. do Autor, 2020). Os três criaram a empresa “Bertaso, Maia e Cia.”, que foi a maior colonizadora da região de Chapecó: eles compraram três grandes áreas, denominadas Fazenda Rodeio Bonito, Fazenda Campina do Gregório e Fazenda Chapecó para vender as terras a milhares de colonos procedentes de diversas regiões do Rio Grande do Sul.
Logo eles perceberam que, além da falta de ordem e garantias individuais e sociais, a luta política e grupos armados com capangas dispostos a matar por encomenda tornariam muito difícil a vida dos colonos.
Para expor o problema a Hercílio Pedro da Luz, governador de Santa Catarina — então chamado de presidente do estado —, Manoel dos Passos Maia foi a cavalo até o Vale do Itajaí, e dali por via marítima deslocou-se até a capital. O governador assegurou-lhe todas as garantias solicitadas e o nomeou delegado especial de Chapecó. Para que a empresa se encarregasse da colonização, concedeu-lhe terras devolutas — terras públicas sem destinação pelo poder público, que nunca tenham integrado patrimônio particular.
Nomeado pelo governador, Passos Maia participa da política: exerce entre 1922 e 1929 o cargo de prefeito em Chapecó tendo governado por 1.749 dias (segundo dados disponíveis, que carecem de confirmação). Estranhamente, de 1926 a 1930 ocupa o mesmo posto em Joaçaba, então conhecida como Cruzeiro. Na época, Adolfo Konder era o governador de SC e Washington Luiz o presidente da República, ele mesmo, que em 1928 determinou a construção de uma ponte de ligação entre a Estação Herval e Joaçaba, a Ponte Emilio Baumgart (que seria levada pela enchente de 1983).
É importante lembrar que a administração municipal daquele período era muito diferente da atual. Não havia a estrutura administrativa que conhecemos hoje, com secretarias especializadas, sistemas digitais, servidores em grande número e mecanismos modernos de comunicação. O prefeito nomeado concentrava responsabilidades e precisava lidar diretamente com questões relacionadas à segurança, obras, estradas, organização urbana e desenvolvimento econômico. Em municípios ainda em formação, governar era também ajudar a construir as próprias condições para que a comunidade pudesse crescer.
Joaçaba, naquele período, ainda estava longe da cidade que conhecemos hoje. A então Cruzeiro começava a se estruturar como centro regional e sua posição estratégica contribuía para o desenvolvimento do comércio e para a ligação com outras localidades. O crescimento da população, a chegada de comerciantes e colonos e a melhoria dos caminhos ajudavam a modificar, pouco a pouco, a paisagem urbana e social. O que antes era apenas um núcleo em formação começava a adquirir características de uma cidade com maior importância regional.
Depois, Passos Maia foi eleito deputado estadual e, ao participar da Revolução Constitucionalista de 1932, teve os direitos políticos suspensos por dez anos, com a perda dos bens patrimoniais, além de ser exilado em Portugal. Entretanto, dois anos depois Getúlio Vargas anistiou alguns revoltosos, entre eles o nosso “coronel”, que voltou à vida pública e foi eleito novamente prefeito de Cruzeiro, agora rebatizada Cruzeiro do Sul.
Sua trajetória, portanto, não se limitou à administração de dois municípios. Ela atravessou momentos importantes e conturbados da política brasileira e catarinense, mostrando como, naquela primeira metade do século XX, as fronteiras entre a vida econômica, a colonização, a política e a administração pública eram muito próximas. Homens como Passos Maia acabavam exercendo diferentes papéis conforme as necessidades de uma região que ainda estava construindo sua identidade.
O mesmo Álbum do Cinquentenário nos conta que no governo de Passos Maia foram dados os primeiros passos para a transformação de Joaçaba, que era um simples povoado e passou a ser uma cidade de destaque. Abriu e alargou ruas e avenidas e, ajudado por sua esposa, construiu o primeiro Grupo Escolar, o edifício dos Correios e Telégrafos, o prédio da Prefeitura e, ajudado por sua esposa, Dona Palmira, angariou verbas para a construção da antiga Igreja Matriz Santa Teresinha, situada onde atualmente está o Hospital Universitário Santa Teresinha.
A história dessa igreja também ajuda a compreender o espírito daquela época. Construir um templo, abrir uma rua, melhorar uma estrada ou levantar uma ponte não era apenas uma questão de obra pública. Eram iniciativas que ajudavam a criar vínculos comunitários e a dar identidade ao lugar. Igrejas, escolas, casas comerciais, praças e espaços de convivência iam formando, aos poucos, a paisagem de uma cidade que deixava de ser apenas um ponto no mapa para se tornar referência para toda uma região.
Filho de José Luiz Maia e Gertrudes Silveira Passos Maia, Manoel nasceu em 25 de dezembro de 1887, em Jaguarão (RS). Realizou o curso primário na terra natal. Matriculou-se no Colégio Militar de Porto Alegre (RS), mas abandonou o curso. Mudou-se em 1942 para Curitiba (PR) e ali faleceu em 16 de junho de 1962.
Desde 12 de dezembro de 1991, Passos Maia é o nome de um município no Oeste catarinense, desmembrado em 1991 de Ponte Serrada, que havia sido distrito de Joaçaba até 1948. É uma homenagem que, de certa maneira, perpetua o nome de um homem cuja trajetória esteve diretamente ligada aos primeiros tempos de organização e colonização de uma das regiões que mais se transformariam ao longo do século XX.
Mais do que a curiosidade de ter sido prefeito de Chapecó e de Joaçaba ao mesmo tempo, a trajetória de Manoel do Nascimento Passos Maia revela um período em que o Oeste catarinense ainda estava sendo desenhado no mapa político, econômico e social do estado. Entre viagens a cavalo, longas travessias, conflitos, colonização, abertura de estradas, construção de pontes e formação dos primeiros núcleos urbanos, homens e famílias ajudaram a transformar uma região de enormes dificuldades em um território de cidades pujantes. E talvez seja justamente essa a maior riqueza da história: perceber que, por trás dos nomes gravados em ruas, municípios, livros e documentos, existem personagens que viveram os desafios do seu tempo e deixaram suas marcas na construção do lugar que hoje, com orgulho, chamamos de nossa terra.
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