por Antonio Carlos “Bolinha” Pereira
Eu nasci em outubro de 1950, poucos dias depois do fiasco na Copa do Mundo sediada pelo Brasil. Meu mano Carlos José tinha cinco anos de idade e lembra que estava jogando bola sozinho no quintal e corredor que adentravam ao setor gráfico da “Livraria, Tipografia e Papelaria Santa Teresinha”, pertencente ao nosso saudoso progenitor, Raul Anastácio Pereira, que o chamou para escutar o jogo pelo rádio, que ficava no canto da sala de refeições da nossa casa, um belíssimo rádio de mesa valvulado, marca Pioneer, daqueles com “olho mágico” (feixe de luz esverdeado ou azulado que variava de tamanho conforme a precisão da sintonia). Carlos entremeava a escuta do jogo com seu futebol solitário, feliz e comemorando, falando e cantando muito a vitória, que nos daria o título de campeões, quando tia Quiquita apareceu na soleira da casa dela (frontal ao prédio da Gráfica, e que era também a residência do casal Raul, Aniela e os filhos). A tia apareceu para dizer que o Uruguai havia feito 2x1. “Eu emudeci totalmente”, recorda meu irmão. O jogo terminou, perdemos a Copa. Ela voltou à soleira e perguntou: — “não vais cantar mais?”
Em 1950 o Escrete Canarinho fez 22 gols e levou apenas 6. O último deles, do uruguaio Alcides Ghiggia, calou o Maracanã lotado por 200 mil torcedores, decretando a derrota, carregada como um estigma por quem viveu aquela época. Humilhação! Vergonha! Vexame!
E o pior estava por vir ao sediarmos a Copa de 2014: os casos de corrupção na CBF, a Confederação Brasileira de Futebol e o suposto “legado da Copa”, com estouro de orçamento e alto custo aos cofres públicos, rombos bilionários, má gestão de verbas públicas e obras até hoje inacabadas em 11 das 12 cidades-sede dos jogos. As investigações revelaram graves esquemas de corrupção e superfaturamento nas licitações e execuções em obras de vários estádios e paralisação de grandes obras públicas. O evento gerou duras críticas sobre a utilização massiva de dinheiro público, em detrimento de investimentos diretos na qualidade de serviços básicos, e inflamou protestos contra a presidente Dilma Rousseff, que depois foi cassada.
Tudo isso, aliado à vergonhosa atuação da nossa “selecinha”, tirou a força do futebol como símbolo da redenção nacional. Sem esquecer a maior derrota da história da Seleção Brasileira, no dia 8 de julho de 2014, teve um "apagão" e perdeu por 7x1 para a Alemanha, sofrendo quatro gols em um intervalo de apenas 6 minutos e 40 segundos.
A Copa do Mundo foi criada em 1928 por Jules Rimet, presidente da FIFA de 1921 a 1954, e acontece a cada quatro anos, reunindo os melhores atletas dos países classificados. A primeira edição aconteceu em 1930 no Uruguai, e a anfitriã foi a vencedora sobre os outros doze participantes, 8 do continente americano e 4 europeus.
Ao conquistarmos o tricampeonato nas Copas da Suécia, Chile e México, foi entregue em 1970 ao Brasil a Taça Jules Rimet — um belo troféu de 3,5 kg e 35 cm, feito em ouro com pedras semipreciosas na base, representando a deusa grega Nice, que personifica a vitória, a força e a velocidade — e em 1983 ela foi roubada de uma exposição na sede da CBF, no Rio de Janeiro... enquanto a réplica estava guardada num cofre!
Logo após a primeira conquista brasileira na Suécia, o dramaturgo e cronista esportivo Nelson Rodrigues cunhou a icônica frase "a Seleção é a pátria de chuteiras", num tempo em que os atletas atuavam em clubes brasileiros, dando a ideia de que o futebol e o time nacional transcendiam o esporte, tornando-se a principal força unificadora e a maior expressão da identidade cultural e da alma do povo brasileiro. A vitória da Seleção ajudou a expurgar o que ele chamava de "complexo de vira-latas" — a tendência cultural de o brasileiro se achar inferior ao resto do mundo. Com as chuteiras, o Brasil provou sua genialidade e passou a ser visto como uma nação de grandeza. Havia grande empatia com o torcedor, mas agora muitos dos jogadores convocados são desconhecidos — apenas alguns atuam em clubes brasileiros.
Enquanto o elenco do italiano Carlo Ancelotti tem um valor de mercado de mais de 5 bilhões de reais, no Brasil existem aproximadamente 90 mil jogadores profissionais registrados na CBF e estudos apontam que 95% dos profissionais recebe entre um salário mínimo e R$ 5 mil. No entanto, a quantidade em atividade é muito menor: dependendo da época do ano e do calendário de campeonatos estaduais, menos de vinte mil atletas possuem contratos ativos. Grande parte desses atletas disputa apenas campeonatos estaduais curtos e ficam desempregados na maior parte do ano, dependendo de outras profissões para complementar a renda.
Desde o dia 11 deste mês de junho 48 seleções jogam 104 partidas, em três países-sede — Estados Unidos, México e Canadá. Um total de 16 cidades recebem as partidas: 11 nos Estados Unidos, 3 no México e 2 no Canadá. Na primeira fase o Brasil enfrenta Marrocos, Haiti e Escócia. Se conseguirmos passar para a fase seguinte... podemos até sonhar com a grande final, marcada para 19 de julho, em Nova Jersey, nos Estados Unidos.
A Copa do Mundo se tornou grandiosa porque reúne tradição esportiva, identidade nacional, audiência global e uma enorme capacidade de movimentar receitas, turismo, patrocínios e mídia, movimentando fortunas, e o seu impacto cultural é inegável: colecionadores de moedas, selos, livros, álbuns de figurinhas, além de músicas especiais compostas e cantadas por torcedores do mundo inteiro, além da rara oportunidade para ouvirmos, antes dos jogos, o hino nacional de cada país.
Em 22 edições do campeonato mundial apenas 8 países sagraram-se vencedores: Alemanha, Argentina, Brasil, Espanha, França, Inglaterra, Itália e Uruguai, que em 1930 foi o primeiro campeão ao sediar a Copa. O Brasil ocupa um lugar central, pois é o único país presente em todas as edições do torneio. Mesmo sem vencer o torneio desde 2002, nosso país segue como o maior campeão da competição, seguido por Alemanha e Itália, com quatro títulos cada.
No entanto, a grandeza da Copa do Mundo não se mede apenas pelas taças erguidas ou pelas derrotas que marcaram gerações. Ela também vive nas lembranças de infância, nos rádios ligados em salas simples, nas ruas tomadas por crianças chutando uma bola improvisada e nas famílias reunidas para torcer. O futebol continua sendo uma das mais poderosas expressões da nossa cultura, capaz de despertar sentimentos contraditórios de orgulho, tristeza, esperança e pertencimento.
Talvez Nelson Rodrigues ainda tenha razão ao dizer que a Seleção é a "pátria de chuteiras", mas essa pátria precisa reencontrar a identificação com seu povo, valorizando o esporte desde a base, respeitando o torcedor e tratando com responsabilidade os recursos que movimenta. Se a Copa nos trará um novo título, ninguém pode afirmar. Mas, enquanto houver brasileiros sonhando com o apito inicial, cantando o hino nacional e acreditando que uma bola pode mudar uma história, o futebol continuará ocupando um lugar especial na memória e na identidade do Brasil, e as conquistas continuam a nos orgulhar:
1958, SUÉCIA – Brasil 5 x 2 Suécia: primeiro título mundial, com atuação histórica de Pelé e consolidação do futebol brasileiro no cenário internacional. Técnico:Vicente Feola.
1962, CHILE – Brasil 3 x 1 Tchecoslováquia: bicampeonato conquistado com grande força coletiva e protagonismo de Garrincha ao longo da campanha. Técnico: Aymoré Moreira.
1970, MÉXICO – Brasil 4 x 1 Itália: triunfo de uma das seleções mais lembradas de todos os tempos, coroando o tricampeonato. Técnico: Mário Jorge Lobo Zagallo.
1994, ESTADOS UNIDOS – Brasil 0 x 0 Itália (3 x 2 nos pênaltis): título marcado por equilíbrio, consistência defensiva e sangue frio na decisão por pênaltis. Técnico: Carlos Alberto Parreira.
2002, CORÉIA DO SUL e JAPÃO – Brasil 2 x 0 Alemanha: pentacampeonato com dois gols de Ronaldo.Técnico: Felipão, Luiz Felipe Scolari.
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