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O TEMPO FATO

Amado e Glorioso Médico

por Antonio Carlos “Bolinha” Pereira, 76 anos completados neste 18 de outubro

Um dia ainda vamos recordar “aqueles tempos da quarentena”, quando todos precisávamos usar máscaras. Tempos de retiro compulsório, isolamento social, cuidados e maior convivência familiar, para repensar e reorganizar nossas vidas. Tempo de botar ordem na casa e dedicarmos maior atenção para coisas que gostamos de fazer, que nos ajudam a passar o tempo.

    Eu sempre colecionei discos (daqueles de vinil) e livros (daqueles de papel). Em vez de descartar coisas que ocupam muito lugar, adaptei espaços para conservar o que para muitos caiu em desuso. Mas, me digam se existe algo melhor que abrir um livro, saborear antecipadamente seu conteúdo e sentir aquele cheiro de tinta e de papel guardado.

    Naquelas horas de folga resolvi catalogar nossa biblioteca caseira — e até mesmo registrar e tentar recuperar os que um dia emprestei. Com experiência e sabedoria, os antigos diziam que emprestar um livro é como mandar um filho para a guerra: muitas vezes nem retorna e, quando volta, pode estar todo “estropiado”.

Pude confirmar que a nossa preferência recai sobre biografias de cantores e artistas — a maioria dos livros lá de casa é sobre música — mas também temos romances, livros de religião, história, biografias, autoajuda, esoterismo, poesia, crônicas, contos, cinema. Ah, e muitos infantis, mas não cataloguei as centenas de gibis... quem sabe um dia. Enquanto digitava os nomes dos livros, fui recordando. Esse aqui eu comprei numa viagem, aquele ali eu ganhei, esse outro ficou guardado e agora vou ler um que alguém recomendou.

Ao chegar no primeiro milhar de títulos encontrei uma preciosidade, um livro autografado por Miguel Balardini, avô da minha esposa, lançado no ano em que ela nasceu. Agora estamos próximos do segundo milhar, e o mais recente a entrar na lista é “Santa Teresinha de Lisieux: viver de amor” (Didier-Marie Golay, 2026), um livro-álbum presenteado por nossos filhos pelo transcurso das bodas de bronze. Sim, completamos 51 anos de casamento.

Parei para apreciar o conteúdo e resolvi reler a condensação de “Amado e Glorioso Médico”. Lançada em 1960 pela revista Seleções do Reader’s Digest, com tradução de Cecília Meirelles, conta a história da vida de Lucano, um piedoso médico, filho de escravos gregos libertos. O exemplar que escolhi tem um atrativo especial: a dedicatória do meu saudoso sogro para a filha Marina.

Janet Miriam Holland Taylor Caldwell, escritora anglo-americana nascida no primeiro ano do século passado, publicou em 1959 “Dear and Glorious Physician” (em tradução literal, "Amado e Glorioso Médico"), um romance histórico sobre a vida de São Lucas, chamado de Lucano, um grego nascido sob os domínios de Roma, filho de Enéias, escravo liberto que se tornou guarda-livros do tribuno romano Diodoro Cirino, em cuja propriedade residiu com a família e, após a morte do pai, Lucas foi por ele adotado.

No Brasil, a obra foi publicada também com o título Médico de homens e de almas, que eu já havia lido (Editora Record, 1985). A autora pesquisou por longos anos a vida e as obras de São Lucas, o padroeiro de médicos e pintores, que ela descreve de maneira romanceada e emocionante, plena de detalhes históricos, um best-seller mundial.

Taylor Caldwell informa, no prefácio do livro, que a maioria dos acontecimentos relatados é autêntica, inclusive os detalhes da família de Lucano e o nome do seu pai adotivo. E prossegue: “Quase todos os acontecimentos, como o fundo desta história, são autênticos. Meu marido e eu lemos mais de mil livros sobre São Lucas e o seu tempo. Incluí também muitas lendas e tradições obscuras que encontrei, quando tinha doze anos, num grande livro escrito por uma freira de Antioquia.”

Ela narra no prólogo: “Este livro levou quarenta e seis anos a ser composto. Sua primeira versão, escrevi-a aos doze anos; a segunda, aos vinte e dois; a terceira, aos vinte e seis. A última começou há seis anos.”

Com certeza é emocionante pensar no “trabalho de uma vida”, ainda mais sabendo que Taylor Caldwell escrevia desde os 8 anos e passou muito tempo até conseguir publicar o seu primeiro romance, quando já tinha 38 anos. E grande parte de seus livros virou best-seller, como “O grande amigo de Deus”, que retrata a vida de São Paulo Apóstolo, nascido Saulo de Tarso.

Ainda criança, Lucano (ou Lucas) interessa-se pelo "Deus desconhecido", um Deus único, bom e justo, muito diferente dos deuses romanos e gregos.  Um militar romano, protetor de Lucano, custeia-lhe os estudos médicos em Alexandria. Mais tarde, Diodoro casa-se com a mãe de Lucano, viúva. Com a morte do romano, Lucano torna-se seu herdeiro e recebe muitos bens, porém prefere uma vida de pobreza e peregrinação, dedicando-se à arte de curar.

São Lucas foi contemporâneo de Jesus Cristo, mas não o conheceu; porém, conversou com sua Santa mãe e, pelo relato de Nossa Senhora e de outras pessoas, apóstolos inclusive, escreveu o terceiro dos quatro evangelhos. A Bíblia o apresenta como médico de coração generoso, bem instruído e autor do que hoje conhecemos como Evangelho de São Lucas e dos Atos dos Apóstolos, onde narra a ascensão de Jesus e o crescimento da igreja primitiva, guiada pelo Espírito Santo, desde Jerusalém até a chegada a Roma do apóstolo Paulo, de quem foi companheiro de viagens. Destaca, na primeira parte, o ministério do apóstolo Pedro e, na segunda, o do apóstolo Paulo, mostrando a ação e a Palavra de Jesus, entendidas e perenizadas por seus discípulos.

Lucas é um discípulo interessado em mostrar a obra e a pessoa de Jesus, em quem encontrou a salvação e deseja seguir unicamente a Ele. No prólogo ou dedicatória do Evangelho, Lucas revela que, quando decidiu escrever sua obra — ali pelo ano 80 da nossa era — já existiam tradições em torno de acontecimentos concretos sobre Jesus, sua vida, paixão, morte e ressurreição: “Muitos empreenderam compor uma história dos acontecimentos que se realizaram, como o transmitiram aqueles que foram desde o princípio testemunhas oculares e que se tornaram ministros da palavra. Também a mim me pareceu bem, depois de haver diligentemente investigado tudo desde o princípio, escrevê-los”.

As primeiras referências a Lucas (nascido em Antioquia, atual Antakya, na Turquia) constam das epístolas de São Paulo, nas quais é chamado de "colaborador" e "o médico amado". A terminologia médica utilizada por Lucas em seus escritos indica, para muitos estudiosos, que ele teria formação em medicina e que pode ter estudado na famosa Escola de Medicina de Tarsus, rival de Alexandria e Atenas, onde possivelmente conheceu São Paulo. Devido ao seu profundo conhecimento do Mar Mediterrâneo Oriental conjectura-se que tenha trabalhado como médico de bordo em navios do Mediterrâneo.

É o patrono, o padroeiro dos médicos e dos pintores. De acordo com a tradição, exercia a profissão de médico e tinha talento para a pintura. São Lucas é frequentemente retratado pintando a figura da Virgem Maria, e acredita-se que teria pintado vários quadros dela, em especial a tela conhecida como "Nossa Senhora do Perpétuo Socorro".

No ano 66 d.C., Lucas mudou-se para a Grécia, onde teria falecido com a idade de 84 anos. De acordo com a Igreja Católica, seus restos mortais encontram-se em Pádua, na Itália, onde há um jazigo com o seu nome, que é visitado pelos peregrinos. Em todo o mundo há diversos hospitais católicos beneficentes com o nome de São Lucas.

Ao reler as páginas de “Amado e Glorioso Médico”, percebo que certos livros chegam até nós como verdadeiros presentes do tempo. Guardam histórias, ensinamentos, lembranças de pessoas queridas e até dedicatórias que atravessam gerações, mantendo vivos aqueles que já partiram. Neste caso, a história de São Lucas se entrelaça com a memória familiar, com a fé cristã e com a minha própria história: nasci no Ano Santo de 1950 justamente em 18 de outubro, dia dedicado ao evangelista e padroeiro dos médicos. Talvez não seja por acaso que, tantos anos depois, eu volte a estas páginas para reencontrar a beleza de uma vida dedicada a cuidar, compreender e servir ao próximo.

Neste 18 de outubro, ao completar 76 anos de vida, agradeço a Deus pela oportunidade de continuar colecionando histórias, músicas, livros e memórias, tesouros que — assim como as boas amizades — o tempo não consegue apagar. Que São Lucas, o médico de homens e de almas, continue inspirando aqueles que fazem da profissão um sacerdócio de amor e daqueles que, mesmo sem jaleco, procuram aliviar dores, oferecer esperança e estender a mão a quem precisa. Afinal, se os livros nos permitem viajar sem sair de casa, a fé nos ensina a enxergar além do que os olhos alcançam. E, entre as páginas amareladas de um velho exemplar e as páginas ainda por escrever da nossa existência, permanece a certeza de que a maior obra de uma vida é aquela escrita com amor, fé e dedicação ao próximo.


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