Por Jaime Telles - escritor e palestrante
Nos últimos dias, multiplicam-se campanhas de combate ao feminicídio. A intenção é legítima: nenhuma mulher deve ser vítima de violência, muito menos de morte. O problema não está na causa, está, muitas vezes, na superficialidade da abordagem.
É fácil proclamar: “Precisamos acabar com o feminicídio.” A frase mobiliza emoções e sinaliza posicionamento moral. Mas, sozinha, pouco transforma. Feminicídio não é um ser autônomo. Quem mata é alguém — uma pessoa concreta, com história, escolhas e responsabilidade. Nomear o fenômeno é necessário, mas a palavra não substitui o agente.
Quantas vezes ouvimos: “Queremos paz”, “abaixo a violência”, “não às drogas”? São declarações que soam bem, mas não enfrentam as causas. É como admirar o título de um livro sem abrir suas páginas. Se não deslocarmos o foco da abstração para a responsabilidade humana, continuaremos reagindo ao efeito e ignorando a origem.
Há ainda um risco adicional: quando a dor real é transformada em palanque. Campanhas superficiais ou movidas por interesse circunstancial também ferem a dignidade da mulher, ao instrumentalizar uma tragédia humana. A causa é justa. O uso oportunista dela não.
O enfrentamento começa antes da estatística. A violência extrema raramente surge sem sinais prévios de quem foi mal moldado para respeitar e conviver. Quando a sociedade naturaliza a posse e banaliza a objetificação feminina, ajuda a construir o terreno onde o desrespeito evolui para agressão.
É preciso perguntar: que tipo de homens e mulheres estamos formando? E que tipo de sociedade estamos fortalecendo?Educação emocional não é acessório; é base civilizatória. Relações saudáveis se constroem com respeito mútuo.
O modelo social atual não surgiu por acaso. É resultado de décadas de descuido institucional e cultural: no conteúdo que consumimos, nos modelos de relacionamento que reproduzimos e na ausência de limites claros. O ser humano não nasce pronto; sua formação molda caráter e escolhas.
Não se trata de relativizar o crime. Trata-se de aprofundar a análise. O fenômeno tem nome. O agente tem rosto. O rosto tem mente — e mentes são formadas. Sem formação adequada, que resultado esperar?
A solução não é simples nem imediata. Exige mais do que palavras de ordem. Exige educação na essência do termo, responsabilidade concreta e maturidade social.
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