Master Capinzal empata com o Leãozinho e segue preparação para duelo em Itá |
por Antonio Carlos Pereira, apresentador de “Os Discos do Bolinha”
Roberto voltou a Joaçaba em 1973 e novamente o entrevistei, confiram no Youtube e em https://osdiscosdobolinha.blogspot.com/.
Além de reverenciar seus pais — em Lady Laura, uma clara homenagem à própria mãe (que acaba se estendendo a todas as mães); em Meu querido, meu velho, meu amigo ao Seu Robertino Braga — na década de 1970 Roberto Carlos desnudou a alma e mais tarde definiria isso como um “strip tease poético”. Especialistas afirmam que falar dos problemas ajuda a superá-los; isso todos sabemos por experiência... Confira:
“Meu pai um dia me falou pra que eu nunca mentisse, mas ele também se esqueceu de me dizer a verdade — da realidade do mundo que eu ia saber, dos traumas que a gente só sente depois de crescer. Minha mulher, em certa noite, ao ver meu sono estremecido, falou que os pesadelos são algum problema adormecido...” (Traumas, 1971), aborda de forma sensível a perda da inocência da infância, os pesadelos noturnos e a percepção de que a realidade é bem mais dura do que as fantasias contadas pelos pais que tentam proteger os filhos da dor ao “enfeitar” a realidade.
“Relembro bem a festa, o apito, e na multidão o grito. O sangue no linho branco, a paz de quem carregava em seus braços quem chorava — e no céu ainda olhava e encontrava a esperança de um dia tão distante, pelo menos por instantes, encontrar a paz sonhada. Essas recordações me matam, por isso eu venho aqui...” (O divã, 1972), uma espécie de sessão de terapia ou confissão imaginária, recorda o trauma infantil.
“Quantas vezes eu pensei sair de casa mas eu desisti, pois eu sei lá fora eu não teria o que eu tenho agora aqui. Meu pai me dá conselhos, minha mãe vive falando sem saber que eu tenho meus problemas e que às vezes só eu posso resolver — Coisas da vida, choque de opiniões...” (À janela, 1972), destaca a tensão entre buscar novas experiências e valorizar o que já tem em casa, ao se dar conta do valor do amor e do conforto do lar.
“E a sua voz se fez ouvir dizendo adeus e eu fiquei perdido em pensamentos e recordações. Não sei por quanto tempo ali fiquei — e como pude controlar as emoções também não sei. Pra não me ver mais triste ainda ela sorriu, me olhou nos olhos, me beijou, depois saiu. Caminhou com passos calmos e parou, me acenou mais um adeus, depois seguiu...” (A estação, 1974), canção de forte teor emocional, retrata a despedida da mãe, quando Roberto partiu de sua cidade natal, Cachoeiro do Itapemirim, rumo ao Rio de Janeiro.
Na semana anterior analisamos os discos do Rei no início da carreira mas não falei da vitória do Roberto Carlos em 1968 no Festival de San Remo, Itália, pois Canzone per te havia sido lançada em compacto simples e só oito anos depois entraria no LP San Remo 1968, sobre o qual voltarei a falar.
Vamos, então, nos deliciar com a colaboração do “meu mais recente amigo de infância”, o paulistano Leandro Lima.
(1970) — Uma palavra amiga é leve, piano esperto, orquestra afiada e um crescimento de refrão genial e percebe-se claramente ser uma sonoridade transitória daquela década efervescente e sofre algumas mudanças. Assim como os Beatles passaram do “iê iê iê” para um psicodelismo mais adulto, Roberto Carlos faz boas investidas em tons mais ´sérios” sem perder a veia da Jovem Guarda.
Meu pequeno Cachoeiro é um clássico absoluto, composto por Raul Sampaio e remete às lembranças de terra natal de ambos ao falar de Cachoeiro de Itapemirim. Uma letra bonita e uma linda melodia que transborda nostalgia.
Se eu pudesse voltar no tempo começa com a orquestra mandando ver junto à cozinha básica, um baixo marcado e Roberto cantando deliciosamente. O tom é agradável e a música tem enfeites orquestrais magníficos. Lembrando que em 1970 saía também o primeiro LP de Tim Maia, então muito daquele timbre solto e mais cru do “síndico”, tem aqui também.
Jesus Cristo dispensa maiores comentários: grandiosidade de louvor, com direito a coral e tudo. RC oferecendo o seu disco e sucesso ao Senhor. Ouça pensando em Jesus e aproveite o momento.
120… 150… 200 km por hora Roberto vai lamentando e descrevendo triste a falta da amada, chorando ao volante, em tom narrativo, enquanto não para de pisar no acelerador. Você vai ouvindo e imaginando o quão bom deveria ser o asfalto nessa época para conseguir andar a 180 km/h… e os pneus com a devida calibragem e balanceamento. A narração é bacana e a canção é deveras interessante.
(1971) — Detalhes é sinônimo de Roberto Carlos, a escolha pra abertura do bolachão é perfeita. Uma orquestração perfeita, andamento bem ritmado e a letra que apela pro coração de quem perdeu um amor e não consegue olvidar. Um clássico absoluto, todos conhecem e creio ser unanimidade na preferência dos fãs.
Como Dois e Dois traz uma cadência de blues interessante e os vocais femininos trazem um clima inigualável. Refrão fantástico traz riqueza à bela composição. A cozinha se comporta como uma banda mais intimista, sem tanta orquestração. O refrão diz que tá tudo tão certo quanto dois e dois são cinco...
Você não sabe o que vai perder tenta capturar os cativos dos anos 60, com um blues bem aplicado. Delícia de música, mostra que o Roberto não quer se apressar tanto em abandonar a veia roqueira. Solos de teclados e coesão mostram a banda segura e bastante competente.
Eu só tenho um caminho com a ainda jovem voz do RC, mostrando o Hammond trabalhando bem e novamente os belos backing vocals trançando enfeites belíssimos em contracanto e criando ricas texturas. Que canção interessante! Gostosa de ouvir, balanço soul music de excelente execução!
Todos estão surdos mais um hit absoluto, o baixo parece um tiroteio de ginga, Roberto oferece reflexões enquanto os backings seguram a bronca. Narração bonita e letra bem sacada, quebra de padrões, tem de tudo aqui.
Debaixo dos caracóis dos seus cabelos é demais, dispensa comentários, dedilhado clássico, a letra saúda Caetano Veloso e o andamento traz esperteza.
(1972) — Como vai você, um clássico… A música é linda, refrão arrebatador, emocional e irrepreensível, tem gente que não sabe cantar o hino nacional, mas recita de cor essa canção… inspiração dos irmãos Antonio Marcos e Mario Marcos foi forte e o arranjo de cordas é maravilhoso.
Um tom de suspense com violinos abre A distância com um refrão que…. é perfeição que se fala? O sol que abre no refrão com emoção, faz da canção um acerto homérico! Que clássico, que inspiração!
Depois do que ouvimos aqui, é agradecer a Deus como RC faz em A montanha. Uma bela canção que ele oferece ao Senhor, belo louvor que se repete e vai crescendo!
(1973) — Proposta é o hit do disco, música bonita do rapaz querendo se relacionar. Calma, tranquila e sem ressalvas, clássico!
El dia que me quieras é um cover de Carlos Gardel, então mais uma vez… espere suavidade, moleza, beleza, romantismo.
De repente, bateria!!!! Olho pro nome do compositor e tá lá, Fred Jorge! Não adianta nada é soul pesado e cru! Um rock cadenciado, com enfeites de metal e a crueza percussiva do disco anterior.
Em seguida vem O Homem … fala de Jesus Cristo de uma forma bonita, descritiva sobre a vida terrena do Messias. A faixa tem beleza, refrão forte em tom menor e solo interessante de guitarra, eis a cozinha de novo dando as caras.
(1974) — Despedida inicia calma e com clima de “A Dama e o Vagabundo”, leve e interessante, que canção bonita! Corais cantarolando, um clima de cantina familiar e o bom gosto transbordando. Final crescendo e muitíssimo criativo.
O portão é um clássico atemporal, a cena que se descreve fica passando na mente, até mesmo o cachorro sorrindo… latindo!? Obras de arte deixam a gente sem palavras e essa música cumpre o papel de ser icônica. Um tom bonito que alivia a alma de viajantes desejosos de retornar pra casa, inteligente abordagem da simples tarefa de retorno ao lar. Emocionante, RC em toda a sua essência.
É preciso saber viver dispensa apresentações, bela canção, solo bonitinho de guitarra e a canção vai se desenvolvendo bem, um alívio bom da tristeza.
Outro clássico absoluto de Roberto: Eu quero apenas é linda e um milhão de amigos concordam que aqui o cantor acertou em cheio, boa melodia e condução, solidificando o que ficou por muito tempo nesse hino de amizade!
(1975) —Quero que vá tudo pro inferno ganha um remake incrível, original do disco Jovem Guarda da metade da década passada. Uma versão atualizada, conduzida em bom gosto e com a voz de RC mais madura. Um petardo, uma bela revisão do clássico. Metais encorpam a música e ela cresce incrivelmente.
O Quintal do vizinho, que melodia! Leve e uma cadência quase celestial. Ele descreve um sonho… o cara plantou uma flor no quintal do vizinho e a música tem esse tom de devaneio! A singeleza aqui atinge um nível inesperado enquanto a cozinha entrega simplicidade extrema na condução. Que canção linda, meus amigos!
Daí vem uma outra pérola chamada Olha… A música vai passeando lindamente e no refrão ela sobe, sobe e sobe pra reiniciar mais emotiva ainda. Os adjetivos faltam e, me desculpem, mas isso aqui é a joia dos anos 70!
De repente um samba sensacional! Além do horizonte. A orquestração é abusada, ousada e finíssima! Lá lá lá lá lá lá laralara! Se você não se empolgar com esse balanço, confere a pressão arterial, talvez tenha morrido…. por dentro!
(1976) — Os seus botões começa introspectiva, mas ao invés de melancolia temos sensualidade no pico. Enquanto RC canta a gente recria a cena exatamente como ele narra. A carga poética é tão bem sacada que você consegue sentir o cheiro dos lençóis macios...
O progresso, agradável e coerente, vai falando sobre degradações ambientais, tomando caminhos ecológicos e cita os animais como mais civilizados que nós.
Seguimos na viagem de 50 anos atrás, sim, o álbum faz cinquentinha este ano. Você em minha vida começa com um bom naipe de metais, desacelera e mostra versos bem bonitos. O refrão é lindo, conclusivo e cativante. Essa é daquelas músicas bem resolvidas, radiofônicas. Aqui RC coloca os progressivos em seus devidos lugares e abraça o povão que o alçou no status que já tinha. É um cinquentão danado de bom, obrigatório revisitar!
(1977) — Amigo é uma música que é um verdadeiro símbolo do cantor, impõe uma homenagem à amizade de forma extremamente emotiva e agradecida. Essa é a primeira de uma trilogia que segue nos anos seguintes com “Lady Laura” em 78 e “Meu Querido Meu Velho Meu Amigo” de 79, só mudar a letra que a melodia das três se assemelham demais.
Roberto sempre cantou em castelhano, e Solamente una vez, de Agustin Lara, traz a roupagem latina do romantismo mais vanguardista: instrumental perfeito, violões calientes e um clima de serenata sensacional.
Finalmente algum agito, Jovens tardes de domingo dá a impressão de um twist gostoso, mas é só a introdução pois lá vem RC apelar pra saudade de outrora e o sentimentalismo. Bela composição, saudosa e com ares nostálgicos. Depois disso retornamos ao twist empolgante e RC cantarola Festa de Arromba, meio que dando um gostinho do que já foi sua fase predominante nos 60’s.
Outro clássico aqui, Outra Vez é uma música que te abraça pra chorar junto e tem alma de consolação. As frases são cortantes, o tom é de saudade mas de excelente gosto. A voz com vibrato moderado de Roberto traz ainda mais apelo reflexivo. “das lembranças que eu trago na vida, você é a saudade que gosto de ter. Só assim sinto você bem perto de mim… outra vez”
(1978) — Roberto mantém um ritual religioso em suas obras como quem tem o bonito hábito de orar antes das refeições. É o que ele faz na bonita música Fé, em alto astral louva a Deus citando onipresença, onipotência e onisciência. Uma linda declaração de fidelidade a Deus.
A primeira vez é uma das canções mais lindas já gravadas, tem um tom tão belo, arranjo de violões e piano que você fica meio paralisado. Os efeitos, a orquestração, tudo é tão competente, o conjunto e a voz de RC contornam tudo numa perfeição extrema. Sério, que canção linda!
Café da manhã também monta em sua mente um belo desjejum para a amada. Que bela composição. Esse disco é um tesouro, tem tudo nele. Fica difícil escolher as melhores!
(1979) — Na Paz do seu sorriso começa adocicada e bem agradável. A cozinha trabalha bem, os timbres estão bem postos e ganham ponto a favor sonoramente. A letra é leve e contemplativa, exalta e reconhece um amor realizado.
O ano passado traz bom trabalho de cordas, letra critica a economia em detrimento da ecologia. Se Roberto tem um viés religioso, o padrão ambientalista aqui mostra mais uma carta. A canção é agradável e ganha ritmo no refrão, um belo solo de guitarra. Acerto dos bons.
Voltei ao passado era uma das características musicais d’Os Discos do Bolinha, e eu anunciava: “música de qualidade não tem prazo de validade, deixamos de lado o que é moderno para ouvir o que virou eterno!” O refrão é explosivo e o andamento lembra o grupo norte-americano “The Stilistics”.
A década de 1970 consolidou Roberto Carlos como um artista capaz de transformar experiências pessoais em canções universais. Entre reflexões íntimas, homenagens à família, declarações de fé, preocupações sociais e alguns dos maiores clássicos da música brasileira, o Rei ampliou seu repertório emocional sem perder a comunicação direta com o público. Foi um período de maturidade artística, em que romantismo, poesia e sensibilidade caminharam lado a lado, produzindo obras que atravessam gerações e permanecem vivas na memória afetiva do país. Revisitar esses discos é abrir um baú de lembranças, sentimentos e melodias eternas, confirmando que, nos anos 70, Roberto escreveu — em parceria com Erasmo Carlos — algumas das páginas mais marcantes de sua trajetória e da história da música popular brasileira.
... CONTINUA NA PRÓXIMA SEMANA COM OS ANOS 80
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