Se existe um artista brasileiro que merece os maiores adjetivos ele se chama Erasmo Carlos. Sua importância não pode ser resumida apenas à parceria vencedora com Roberto Carlos, que dedicou a ele esses versos:
♪♪ ♪♪ Você, meu amigo de fé, meu irmão, camarada!
Amigo de tantos caminhos, de tantas jornadas
Cabeça de homem mas o coração de menino
Aquele que está do meu lado em qualquer caminhada
Um dos grandes roqueiros brasileiros, fã de Elvis Presley e Chuck Berry, o carioca Erasmo Carlos abraçou a carreira musical em 1958 cantando no grupo The Sputniks, do qual participavam Roberto, Tim Maia, Arlênio Lívio, Edson Trindade e China, integrantes da turma da Rua do Matoso, no bairro da Tijuca.
Era uma época em que os puritanos da música criticavam o uso da guitarra elétrica e o Tremendão ajudou a moldar a cara do rock nacional. Desbravou o gênero em pleno auge da Bossa Nova. No final dos anos 50, fundou grupos musicais. Erasmo, um dos poucos mitos do rock nacional, participou duas noites da primeira edição do Rock in Rio em 1985.
— “Erasmo, você é considerado o pai do rock'n'roll brasileiro.”
Quando o elogiavam, ele brincava e respondia:
— “Eu quero saber quem é a mãe, porque eu não transei nem com a Wanderléa nem com a Rita Lee.”
Os irmãos Marcos e Paulo Sérgio Valle são autores de uma música gravada pelo Erasmo em 1971: “Vinte e seis anos de vida normal, cinco eu passei lendo jornal. Vinte e seis anos querendo você, quatro eu passei vendo tevê.” Em abril de 1968, quando esteve em Joaçaba, Erasmo Carlos tinha 26 anos. Ele se apresentou no Ginásio Silveirão no sábado. Eu ainda tinha 17 anos e quando fui entrevistá-lo na manhã de domingo, no antigo Hotel Alabama, levei meus irmãos mais novos para conhecer o cantor: Raul Fernando tinha 11 anos, Maria Angelina 9 e a Maria José apenas 7 aninhos, e na foto elas aparecem sorridentes, abraçadas pelo Tremendão.
A convivência com Roberto Carlos e Carlos Imperial levou Erasmo a adotar "Carlos" como segundo nome, decisão tomada após ler num almanaque que esse nome é considerado especial pelos ocultistas, por suas letras remeterem a lideranças poderosas (C de Cristo, rei dos judeus; A de águia, rainha das aves; R de Rosa, rainha das flores; L de leão, rei dos animais; O de Ouro, rei dos metais; e S de Sol, rei dos astros).
♪♪ ♪♪ Me lembro de todas as lutas, meu bom companheiro
Você tantas vezes provou que é um grande guerreiro
O seu coração é uma casa de portas abertas
Amigo você é o mais certo das horas incertas
No ano de 1962 Erasmo participou da gravação do LP de estreia do grupo Renato e Seus Blue Caps. Seu primeiro grande sucesso veio em 1964 no LP “A Pescaria”, seu primeiro “bolachão”: a música “Festa de arromba”, composta em parceria com Roberto, se transformou em hino da “Jovem Guarda”, o programa que projetou a música jovem feita no Brasil apresentado no auditório da TV Record pelo trio Erasmo, Roberto e Wanderléa de 1965 a 68.
Eles cantam “É preciso saber viver” ao final de do filme “Roberto Carlos e o diamante cor de rosa” (1970). Erasmo também atuou em “Roberto Carlos a 300 km por hora” (1971) e na comédia “Os machões” (1972). Nesse último foi indicado a melhor coadjuvante masculino e ostentava com orgulho o Troféu APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte).
Colecionou sucessos nas paradas: “Você me acende”, “Gatinha manhosa”, “A carta”, “Terror dos namorados”, “Minha fama de mau”, “Estou dez anos atrasado”, “Vem quente que eu estou fervendo”, “Coqueiro verde”, “Sou uma criança, não entendo nada”, “Mesmo que seja eu”, “Pega na mentira”, além de “Cachaça mecânica”, que alcançou o primeiro lugar na Holanda.
Entre fotos e lembranças bem humoradas ele lançou em 2008 o livro “Minha Fama de Mau” onde conta como o menino pobre, criado pela mãe numa casa de cômodos, superou todas as limitações e o preconceito da Zona Sul carioca, consagrando-se, junto ao amigo Roberto Carlos, como o porta-voz sentimental de milhões de pessoas.
Erasmo dedica as memórias contidas na autobiografia a uma única pessoa. “Ofereço este livro à minha mãezinha Maria Diva Esteves”. Dona Diva veio da Bahia para o Rio de Janeiro antes do nascimento do filho, trabalhou como assistente de enfermagem e, embora fosse solteira, declarava-se viúva para que o filho, que ela criou sozinha, não tivesse traumas. Ela faleceu em 5 de fevereiro de 2004, aos 83 anos, no Rio de Janeiro.
♪♪ ♪♪ Às vezes, em certos momentos difíceis da vida
Em que precisamos de alguém pra ajudar na saída
A sua palavra de força, de fé e de carinho
Me dá a certeza de que eu nunca estive sozinho
— “Por que ao longo da carreira você não conseguiu o mesmo sucesso do Roberto, mesmo sendo parceiro na maioria das músicas dos discos dele?”
— “Porque ele tem muito mais carisma e também porque ele se propõe a ser um cantor e eu não. O Roberto aprimora o canto, eu não aprimoro canto nenhum. Prefiro ver o Vasco da Gama jogar em vez de aprimorar meu canto. Nunca perdi meu tempo aprimorando o canto. Eu quero ser um compositor que interpreta as músicas que faz. Não tenho pretensão, nunca desejei ser cantor.”
Em 1967 gravou "O tremendão", composta para ele por Marcos Roberto e Dori Edson. Durante todo o restante daquela época, Erasmo e Roberto tornaram-se os principais astros e compositores da Jovem Guarda, fornecendo material para os colegas e gravando inúmeros sucessos. Durante cinco anos na RGE, de 1964 a 1969, Erasmo gravou com acompanhamento de grandes amigos: Renato e Seus Blue Caps, Fevers, Jet Blacks e Jordans e continuou compondo canções com o eterno parceiro ou com novas parcerias.
A partir do final da Jovem Guarda, mais aberto à bossa e à MPB o Erasmo, que durante todo esse tempo morou em São Paulo, começou a pensar em retornar para o Rio. Contratado pela Polygram, que naquele início dos anos 70 formou um elenco invejável de artistas ligados à MPB, gravou discos que fundiam as origens do rock com as tendências de nossa MPB, trabalhando ativamente até o final dos anos 80.
Mesmo sem saber, as gerações rock dos 80 e 90 produziram sob forte influência daquele legado, pois Erasmo reuniu o melhor dos músicos de rock, soul, tropicália e MPB que o Brasil dispunha nos anos 70, entre eles Aristeu Alves dos Reis nas guitarras. Músico de formação erudita, Aristeu começou tocando rock, jazz e bossa nova. Foi ele quem criou a bela harmonia na introdução de “Sentado à beira do caminho”.
Lançado em 1981 o álbum “Mulher” alcança grande repercussão com as canções "Mulher (Sexo Frágil)" (escrita com sua mulher, Narinha), "Pega na mentira" e “Minha superstar” (ambas em parceria com Roberto Carlos).
♪♪ ♪♪ Você meu amigo de fé, meu irmão camarada
Sorriso e abraço festivo da minha chegada
Você que me diz as verdades com frases abertas
Amigo você é o mais certo das horas incertas
Erasmo Carlos alcançou em vida a glória de ver e ouvir suas composições gravadas por muita gente, teve diversos parceiros e começou os anos 80 com um projeto ambicioso e pioneiro no Brasil: cantar em dueto com grandes nomes. “Erasmo Convida” teve destaque nas rádios com a regravação de "Sentado à beira do caminho", ele e o parceiro Roberto Carlos nos vocais.
Nara Leão, Maria Bethânia, Cauby Peixoto, Agnaldo Timoteo, Angela Maria, Sérgio Reis, Waldick Soriano e outros intérpretes gravaram álbuns inteiramente dedicados às obras-primas que ele compôs com Roberto Carlos.
"Eu fui importante, mas não fui o mais importante." Em 1997, Erasmo foi homenageado junto com Roberto pelo conjunto da obra, no XVII Prêmio Shell para a Música Brasileira. Em 2014 "Gigante Gentil", seu terceiro disco consecutivo de músicas inéditas, venceu o Grammy Latino “Melhor Álbum de Rock Brasileiro”. Em outubro de 2018 ganhou o prêmio UBC, da União Brasileira dos Compositores como "Compositor Brasileiro do Ano"; foi indicado ao Grammy Latino de Gravação e em novembro daquele ano recebeu em Las Vegas o “Prêmio Excelência Musical da Academia Latina”. Em novembro de 2022, Erasmo ganhou mais um Grammy Latino com “O Futuro Pertence à... Jovem Guarda” "Melhor Álbum de Rock ou Música Alternativa em Língua Portuguesa".
Erasmo Carlos não quis ser o maior. Ele quis ser inteiro. E conseguiu. Por isso, toda vez que alguém disser que o rock brasileiro acabou na Jovem Guarda, coloca Erasmo pra tocar. Ele prova que o rock brasileiro nunca acabou, só cresceu, ficou mais sábio, e aprendeu a dançar devagar.
Erasmo Carlos nasceu em 5 de junho de 1941 e faleceu em 22 de novembro de 2022 no Rio de Janeiro, em um hospital na Barra da Tijuca. A causa da morte foi uma paniculite complicada por septisemia de origem cutânea. Quando ele morreu, o luto foi nacional. Não porque era amigo do Roberto. Mas porque o país perdeu um narrador. Alguém que sabia contar o Brasil cantando.
♪♪ ♪♪ Não preciso nem dizer
Tudo isso que eu lhe digo
Mas é muito bom saber
Que você é meu Amigo...
e eu tenho um grande amigo!
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