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OTEMPO DE FATO

​LÂNGUIDA LÂMINA

Por Jaime Telles

De ponte a abismo, um pulo. Remédio ou veneno, uma gota responde. Abrigo ou cárcere, serve a mesma chave. De lesão a bálsamo, idêntico curativo.

Palavra, dobradiça do pensamento, que no papel ganha vez e, na garganta, ganha voz.

A arte de falar bem é apenas parte de um todo que vai muito além. Falar bem é recurso; fazer-se ouvir é consequência; fazer-se compreender é competência; fazer-se lembrar é talento; fazer-se sentir é arte. A verdadeira oratória começa onde termina a simples emissão de palavras.

A voz humana transporta muito mais que vocábulos. Transporta intenção.

Uma mesma palavra pode acolher ou humilhar, convocar ou dispersar, incendiar ou apaziguar, dependendo de quem a pronuncia, de como a pronuncia e, sobretudo, de para que a pronuncia. O conteúdo importa, evidentemente; mas a maneira de entregá-lo pode determinar se encontrará resistência, indiferença ou abrigo.

A palavra escrita espera.
A palavra falada avança.

Entra pelos ouvidos, atravessa a atenção, encontra a memória e, quando bem conduzida, alcança algo mais profundo: a imaginação. É nesse território que a oratória deixa de ser simples comunicação e se converte em força de influência.

O orador entrega sempre mais que uma ideia. Entrega possibilidade de percepção.

Pode fazer uma multidão enxergar aquilo que, até então, permanecia diante de todos e ainda se escondia nos porões da distração ou do desconhecimento. Pode conferir contorno ao que estava difuso, ordem ao que parecia caótico, coragem ao que sugeria temor. Pode reunir, em torno de uma mesma compreensão, pessoas que até então caminhavam dispersas.

A força da oratória está justamente nisso: ampliar a potência de uma única consciência até fazê-la ressoar em muitas outras. Pensar falando e falar pensando: sobre o que se sabe, sobre o que o evento contém e sobre o que convém.

Sozinho, tem-se uma experiência. Se souber narrá-la, pode transformá-la em consciência coletiva.

Alguém possui um sonho. Ao pronunciá-lo com clareza, ritmo e convicção, pode fazer outros enxergarem o mesmo horizonte.

A palavra que acaricia também fere.
Consola e confronta.
Pode ser bálsamo para uma alma ou navalha na carne.

E quando encontra a voz certa, no momento certo, diante das pessoas certas, deixa de ser apenas palavra. Torna-se força.

Talvez nenhuma outra ferramenta humana seja tão paradoxal.

Tão lânguida em sua aparência e tão cortante em sua consequência.
Tão leve ao sair dos lábios e tão pesada ao pousar sobre a consciência.
Tão efêmera no som e, às vezes, tão eterna na memória.

Eu vivo a oratória e dela fiz ofício, rotina e predileção. Quanto mais a analiso e conjecturo, mais certeza tenho da luminosa infinitude dessa lânguida lâmina.


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