por Antonio Carlos Pereira, joaçabense, 75 anos
Na década de 1950, nos meus tempos de criança, o passeio dominical que papai nos proporcionava era levar os filhos ao aeroporto, de táxi, para apreciar o movimento de chegada e saída dos aviões.
Foi o Pároco Frei Edgar Löers quem sugeriu ao prefeito de Joaçaba, Oscar Rodrigues da Nova, o local para a instalação do Aeroporto Santa Terezinha. Eis as suas especificações: Pista principal (15/33): Comprimento: 1 260 m, Largura: 18 m. Tipo de pavimento: asfalto. Resistência (PCN): 10/F/C/Y/U. Distâncias aéreas:O Aeroporto de Chapecó fica a cerca de 114 km de Joaçaba, Joinville: 281 km, Curitiba: 295 km, Florianópolis: 297 km, Foz do Iguaçu: 365 km, São Paulo: 635 km, Rio de Janeiro: 961 km, Brasília: 1320 km.
Nas décadas de 1950 e 1960 aeronaves de grande porte pousavam aqui, como um dos aviões mais icônicos da história, o Douglas DC-3, na era de ouro da aviação a pistão.
Visando melhor informar aos nossos leitores, peço licença ao Sr. Artur Lindner para transcrever o “Breve Histórico do Aeroporto de Joaçaba”, que ele publicou no Livro do Centenário de Joaçaba.
“O Aeroporto de Joaçaba serve ao município de Joaçaba e região Meio-Oeste do estado de Santa Catarina. Inaugurado em maio de 1949, é o aeroporto mais antigo do interior catarinense. Sua localização é privilegiada, estando aproximadamente a 300 km das capitais do Sul do Brasil, bem como a 300 km da fronteira da Argentina e do Paraguai e no centro do maior celeiro de aves e suínos do mundo. Está às margens da BR-282 e a 6 km do centro da cidade.
Dada a difícil topografia da região, o aeroporto foi construído em uma parte alta, com o desmanche de dois morros para se conseguir uma área plana de 1.300 metros de comprimento e aproximadamente 180 metros de largura. No início a pista era de saibro em chão batido. Operavam no aeroporto os famosos aviões DC-3 com linhas diárias para São Paulo, levando mercadorias e passageiros. Para se ter uma ideia de carga, o avião trazia os jipes DKW para as concessionárias de Joaçaba e na volta embarcavam-se máquinas agrícolas. Existiam decolagens noturnas com balizamento por lampiões de querosene.
Além de aviões exclusivamente para passageiros, de diversas companhias aéreas (Varig, Real, TAC e Sadia), os de carga transportavam também os produtos do frigorífico Sadia de Concórdia. Alguns aviões eram mistos, levavam carga e passageiros.
Na década de 1950 foi fundado o Aeroclube de Joaçaba, com o intuito de formar pilotos e estimular as atividades aéreas. As aeronaves de treinamento eram cedidas pelo Ministério da Aeronáutica em comodato, com a finalidade de instrução e treinamento de pilotos. O Aeroclube existe até hoje.
Na década de 1980 o aeroporto recebeu pavimentação asfáltica nas dimensões de 1.270 m de comprimento por 18 m de largura, com os devidos pátios de estacionamento para as aeronaves.
Com a melhoria da estrutura rodoviária e a construção da BR-282 e o fim dos subsídios governamentais, a aviação comercial de linhas aéreas para nossa região ficou inviável. Pequenas companhias tentaram reativar as linhas, mas sem sucesso. Eram aeronaves pequenas transportando poucos passageiros com custo muito alto.
Hoje o aeroporto recebe voos particulares diariamente, pois atende todos os municípios da região Meio-Oeste, com opção de operação noturna. Para a realidade de transporte de passageiros, ele precisaria receber aeronaves maiores, o que a pista e as instalações não comportam. Atualmente está em fase de projeto uma revitalização do aeroporto para conseguir operar com aviões maiores, o que daria nova dinâmica, agilidade e conforto no deslocamento de pessoas para grandes centros do País.”
Foi o texto acima que o piloto joaçabense Artur Lindner escreveu em 2017.
A antiga Transbrasil, famosa companhia aérea fundada por Omar Fontana (nascido em 1927 aqui em Joaçaba, filho de Attilio Fontana), que arrendou um avião Douglas DC-3 para transportar carne fresca de Santa Catarina para São Paulo, muito mais rapidamente que pela via férrea. A ideia foi um sucesso, o que levou Omar a constituir a Sadia S.A. Transportes Aéreos. Em 16 de março de 1956, o DC-3 prefixo aeronáutico PP-ASJ iniciou serviços combinados de carga e passageiros entre Florianópolis, Videira, Joaçaba e São Paulo.
O DC-3 pode transportar entre 21 e 32 passageiros, variando conforme o layout da companhia aérea e a sua tripulação é composta geralmente por 2 pilotos e 1 rádio-telegrafista. A capacidade máxima de combustível do Douglas DC-3 varia conforme a versão e a configuração dos tanques, ficando geralmente entre 3.000 e 3.736 litros (cerca de 800 a 987 galões americanos), o que permite uma autonomia de voo aproximada de 9 horas, com um alcance superior a 2.500 km e suporta uma carga útil de até 4.000 kg.
Com a criação daquela empresa aérea Joaçaba também foi beneficiada, como relata Attilio Fontana em “História da minha vida” (Ed. Vozes, 1980), como segue: “... recentemente compramos, em Joaçaba, uma indústria de óleo de soja com capacidade bastante grande, pela ordem de 800 toneladas/dia”, a qual passou a operar com a razão social “Sadia Joaçaba Indústria de Óleos Vegetais Ltda”. Assim, pela ação e liderança de Attilio Francisco Xavier Fontana, toda a região e o estado de Santa Catarina e o Brasil tiveram o benefício de sua performance de homem público, que foi agraciado com o honroso título de Cidadão Honorário de Joaçaba. Ele iniciou sua carreira política criando e presidindo o diretório do PSD local e foi senador da República.
O Aeroporto Santa Terezinha (JCB) não registra voos comerciais regulares há anos, mas recebe aeronaves de pequeno porte, voos aeromédicos e inspeções técnicas da própria FAB. A sua importância na história da aviação brasileira é destacada pelo mesmo Artur Lindner, ao lembrar que no dia 5 de janeiro de 1995 a Transbrasil, sucessora da Sadia, publicou no Jornal Estado de São Paulo um anúncio em homenagem aos 40 anos da Companhia, com a seguinte mensagem: “5 de janeiro de 1955: um DC-3 decolava rumo a Joaçaba; 5 de janeiro de 1995: A frota mais moderna da América Latina decola para 20 grandes cidades brasileiras, Orlando, Miami, Washington, Nova York, Buenos Aires e Viena.”
O Aeroporto Santa Terezinha, portanto, não é apenas uma pista de pouso e decolagem. É parte da memória de Joaçaba, testemunha de uma época em que ver um avião chegar era acontecimento capaz de reunir famílias, despertar sonhos e aproximar a cidade dos grandes centros.
Para mim, permanece também a lembrança daqueles domingos em que papai nos levava de táxi ao aeroporto, e nós, crianças, acompanhávamos com encantamento o movimento dos gigantescos aviões. Talvez sem perceber, naqueles passeios, estávamos também aprendendo a admirar uma parte importante da história da nossa cidade.
Hoje, quando se fala na possibilidade de retomada dos voos comerciais, é inevitável olhar para o futuro sem esquecer esse passado. Que o velho Aeroporto Santa Terezinha possa voltar a ouvir o ronco dos motores e a receber passageiros, cargas e novas histórias. Afinal, aeronaves não transportam apenas pessoas, mas possibilidades. E Joaçaba, com sua localização estratégica e sua trajetória na aviação, ainda tem muitos destinos pela frente.
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