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O TEMPO jornal de fato

O CARNAVAL EM JOAÇABA

por Antonio Carlos “Bolinha” Pereira, 75 anos

“Sou Vale Samba, eu envergo mas não quebro, tô pronto pra recomeçar.

Vamos renascer das cinzas nosso legado jamais se apagará.

Sou Vale Samba, amor maior não há.

Juntos somos mais fortes e de mãos dadas vamos continuar!”

Sim, vale a pena amar a cada dia se apaixonar!

Por ti Vale Samba, Escola querida, eu vou lutar por toda a vida!

O carnaval joaçabense não nasceu grande — ele se fez grande. Cresceu com o esforço voluntário, com as madrugadas de ensaio, com os barracões fervilhando criatividade, com costureiras, músicos, coreógrafos, carnavalescos e dirigentes que trabalharam movidos pela paixão. Cada escola de samba construiu, ao longo dos anos, uma identidade própria, consolidando um desfile competitivo, organizado e tecnicamente refinado, que nada deve aos grandes centros do país.

É verdade que muitos defendem o desfile das escolas como “o maior espetáculo da terra”. No entanto, proponho uma reflexão: ficar por horas a fio nas arquibancadas, enfrentando frio ou calor, aguardando a passagem das agremiações pela avenida, nem sempre proporcionam conforto. Mas talvez o encanto não esteja no conforto — esteja na emoção coletiva. No arrepio que percorre o corpo quando o primeiro surdo ecoa. No brilho dos olhos ao ver a comissão de frente abrir os trabalhos. No orgulho de ver a comunidade representada em cores, alegorias e enredos que contam histórias com arte e criatividade.

O carnaval é também desenvolvimento. Os desfiles atraem turistas, movimentam a economia, projetam o nome de Joaçaba para além das fronteiras catarinenses. São verdadeiras óperas a céu aberto, onde a avenida se transforma em palco e o povo em protagonista. Hotéis lotados, restaurantes cheios, comércio aquecido.

Mas há um capítulo que não pode ser esquecido: o carnaval de salão. Houve um tempo em que os clubes eram o coração da folia. Salão ornamentado, serpentinas colorindo o ar, confetes cobrindo o chão, orquestras se revezando sem descanso. As marchinhas embalavam paqueras discretas, namoros que viraram casamento, amizades que atravessam décadas. As matinês enchiam-se de crianças fantasiadas, aprendendo desde cedo o gosto pela alegria compartilhada.

      Era um carnaval mais íntimo, mais familiar, todos se conheciam pelo nome. Uma diversão inocente, coletiva, que fortalecia laços comunitários. Quem viveu aquelas noites guarda no coração a trilha sonora que marcou gerações. Mas a memória não morre. Ela se transforma em patrimônio imaterial. Cantar “Ó abre alas”, “Mamãe eu quero”, “Bandeira Branca”, “Cidade Maravilhosa” é mais do que entoar uma música: é reviver um tempo, é reconectar-se com quem fomos. É perceber que o carnaval é múltiplo — cabe na avenida grandiosa, cabe no salão ornamentado, cabe na lembrança embalada por nostalgia.

Joaçaba, hoje oficialmente Capital do Carnaval Catarinense, carrega essa dupla herança: a grandiosidade dos desfiles contemporâneos e a ternura dos bailes antigos. Uma tradição construída por gerações, sustentada pela comunidade e renovada a cada ano.

Apesar das costumeiras reclamações dos que reclamam costumeiramente, o desfile acontece na principal rua de Joaçaba. As escolas de samba apresentam fantasias, alegorias e apresentações que celebram a cultura popular e encantam visitantes. O público conseguiu acompanhar o evento presencialmente e por meio das redes sociais, vendo as escolas capricharem como nunca, entregando um resultado maravilhoso que a todos encantou. Ricardo Nodari, presidente da Liesjho, resumiu: “O Carnaval de Joaçaba 2026 mostrou mais uma vez a força das nossas escolas e a dedicação de cada comunidade envolvida.”

Participando desde 2013, a Acadêmicos do Grande Vale homenageou a primeira porta-bandeira do nosso carnaval, D. Maria dos Prazeres, com o enredo: “No Giro de Maria, a Força do nosso Carnaval”.

Fundada em março de 1981, a Unidos do Herval apresentou o enredo “Tsara, a Tenda dos Encantamentos e Ensinamentos Ciganos”, falando de Santa Sara Kali. Mesmo sem canonização formal ela é a padroeira dos ciganos e venerada por mulheres que pedem fertilidade.

A Escola de Samba Vale Samba tem as cores azul e branco, nasceu em 1979 da fusão de dois blocos carnavalescos e se consagrou campeã do Carnaval de Joaçaba 2026, com o enredo “Vale a Pena Amar”, cuja letra exalta a emoção do carnaval e a história de amor, celebrando a dança da vida e a comunidade, é a recordista de títulos, com 16 conquistas no total.

A conquista mais recente acontecera no ano passado com o enredo “Abracadabra” criado pelo carnavalesco Zezzo Henze, que garantiu o décimo sexto troféu de Campeã do Carnaval de Joaçaba. Em uma ironia do destino, exatamente um mês após a euforia do título, ao amanhecer do dia 02 de abril um incêndio consumiu as instalações da escola, transformando em cinzas tudo o que havia sido construído ao longo de 46 anos. Fantasias, alegorias, documentos, fotos, troféus e materiais acumulados ao longo das décadas se foram e restaram apenas as cinzas.

Mas a história da Escola não acabou, ela sempre foi símbolo de luta e superação, e não será derrotada por uma tragédia. A Comunidade Vale Samba seguiu unida na paixão pelo samba e pelo espírito de Força, união, vontade de vencer e dedicação, como demonstrou ao conquistar mais um título neste ano. Como afirmou o vice-presidente Elanderson “A Vale não é um barracão, a Vale são as pessoas que se doaram, que acreditaram, que não largaram as mãos.”

Caroline Reese Pereira Kornelius, integrante do Conselho, comemora: “A Vale não são as fantasias, as alegorias, os instrumentos da bateria, as plumas e tudo o que se foi com o fogo. A Vale somos nós, a Vale é cada um que tem azul e branco no coração! Estamos vivendo a nova era e o futuro nos espera. É difícil a gente acreditar que colocou a Vale na avenida, depois de tanta dificuldade, e esse fato isolado já é uma vitória, independente do resultado. Ganhar o carnaval só comprova que sim, VALE a pena amar, VALE a pena ficar sem dormir, VALE a pena todo o cansaço e todo o esforço, todas as lágrimas. Cada um que trabalhou no barracão, em casa, cada um que desfilou, ajudou a conquistar esse título.”

Na Bateria Nota Dez minha filha Caroline e meu neto Paulo participaram com altivez. A convite do carnavalesco Zezzo Henze, confirmado pela presidente Cristina, participei com destaque no carro da Velha Guarda da Vale Samba. Eu havia participado apenas uma vez, em 2012 (quando também vencemos com o enredo "Evolução, revolução... O fantástico mundo da comunicação!"). Na época fui convidado pelo carnavalesco Hernani Siqueira a desfilar como o comunicador há mais tempo em atividade, pois desde 1966 apresentei nas rádios daqui e de Herval d’Oeste “Os Discos do Bolinha”.

O resultado divulgado na tarde de terça-feira teve uma diferença pequena entre a primeira e a segunda colocada. A escola Vale Samba alcançou a marca de 159,1 pontos na apuração, seguida da Unidos do Herval com 158,9, uma diferença de apenas dois décimos. A Acadêmicos do Grande Vale ficou em terceiro lugar no ranking, recebendo 158,8 pontos. Uma nova escola, a Soweto, desfilou como convidada.

Através da Lei nº 19.126, de 13 de dezembro de 2024, a Assembleia Legislativa de Santa Catarina alterou o Anexo Único da Lei nº 16.722, de 2015, para denominar o Município de Joaçaba como a Capital Catarinense do Carnaval. Um reconhecimento oficial que coroa décadas de trabalho, dedicação e amor à folia. Se me permitem o registro, trata-se de uma homenagem que chega com certo atraso histórico, pois muitos dos grandes incentivadores dessa trajetória já não estão entre nós para celebrar.

Entre tantos outros que transformaram sonho em espetáculo, eles plantaram as sementes da excelência que hoje orgulha Joaçaba. Homens visionários como o inesquecível Carlão, Carlos Adão Tratsk, um dos fundadores da Unidos do Herval; Carlos Fett, que elevou a Aliança a um patamar de grande expressão artística; João Paulo Dantas, pesquisador dedicado e entusiasta da Vale Samba, autêntico “multimídia”. Com seu prematuro falecimento o carnaval levou um baque, e em 2021 foi enfim lançado o livro "Joaçaba Samba e faz Escola desde 1934", escrito por ele em parceria com Jorge Zamoner.

Lembremos também do Luiz Dorini, renomado carnavalesco, colaborador e torcedor apaixonado da escola de samba Vale Samba, de Joaçaba. Ele é lembrado por sua dedicação à escola, atuando como destaque e carnavalesco, ajudando a agremiação a conquistar títulos. Sua trajetória é marcada por dedicação à "Vale Samba", escola que ele considerava sua escola do coração, onde ele iniciou aos 16 anos na área de criação e costura.

·            Atuação na Vale Samba: Dorini foi uma figura essencial na Vale Samba, contribuindo com a criação de fantasias e como destaque de luxo.

·            Carreira e Arte: Além do carnaval, era cabeleireiro e empresário (hair beauty stylist) em Joaçaba, trazendo sua paixão pela beleza e tesouras para as criações na avenida.

·            Reconhecimento Nacional: Luiz Dorini levou o nome do carnaval de Joaçaba para o cenário nacional, desfilando como destaque de luxo na Portela (Rio de Janeiro) e na Gaviões da Fiel (São Paulo).

·            Falecimento: Luiz Dorini faleceu em maio de 2025, aos 43 anos, deixando um legado na cultura de Joaçaba.

·            Homenagem: Em fevereiro de 2026, durante o desfile que consagrou a Vale Samba campeã, ele foi relembrado com emoção pela diretoria da escola. 

No melhor desfile que já assisti, o de 2000, com a cena memorável de uma locomotiva passando na Avenida central de Joaçaba, assim cantava a Vale Samba, no enredo vitorioso “Do Passado Contestado, um Presente de Futuro”:

“Quem Não Viu Quer Ver/ Beleza, Festa E Tradição

O Esplendor Da Natureza/ Faz Balançar Meu Coração”

E quando a quarta-feira de cinzas chega, encerrando o ciclo da folia, ecoa o verso do Poetinha: “Acabou nosso carnaval e, no entanto, é preciso cantar e alegrar a cidade...” Porque, enquanto houver memória, música e gente disposta a sonhar, haverá carnaval. E quem me dera viver para ver — e brincar — muitos outros carnavais.

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