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O TEMPO jornal de fato

OS BEATLES BRASILEIROS

Antonio Carlos “Bolinha” Pereira

Feche os olhos e sinta: os anos 60 estão de volta!

Entre 1966 e 2016 apresentei, em diversas emissoras de Joaçaba e Herval d’Oeste, as boas músicas do tempo da Jovem Guarda no programa “Os Discos do Bolinha” e entrevistei muitos artistas que passaram por aqui, como Angela Maria, Agnaldo Timóteo, Antonio Marcos, Celso Blues Boy, Erasmo Carlos, Jerry Adriani, Moacyr Franco, Oswaldo Montenegro, Os Demônios da Garoa, Raul Seixas, Roberto Carlos, Renato Barros.

Renato Barros é um dos compositores favoritos do Roberto Carlos, que gravou “O feio” (1965, parceria com Getúlio Cortes), “Você não serve pra mim” (1967), “Não há dinheiro que pague” e “O tempo vai apagar” (1968, esta em parceria com Getúlio Cortes), “Maior que o meu amor” (1970) e “Você não sabe o que vai perder” (1971).

Mas eu jamais imaginei que o meu programa entraria para a história da Música Popular Brasileira, e isso aconteceu com a publicação do livro “Renato Barros um Mito, uma Lenda”, onde a pesquisadora professora e advogada piracicabana Lucinha Zanetti narra em 644 páginas, ricamente ilustradas, a vida e a obra de Renato Barros, líder da banda de rock mais antiga do planeta em atividade, Renato e Seus Blue Caps. Para minha alegria, a publicação contempla a entrevista que despretensiosamente realizei com o Renato em 1996, antes do memorável show realizado na madrugada de 16 de junho daquele ano na Associação Atlética Banco do Brasil - AABB de Joaçaba.

Eles foram contratados para tocar na AABB Joaçaba pela quantia de R$ 8.800,00 mais um extra de R$ 300,00, totalizando nove mil e cem reais, que foram pagos assim: R$ 2.400,00 em 20/03/96, outros R$ 2.400,00 em 30/03/96 e o saldo de R$ 4.300,00 foi quitado antes da apresentação. Entre as exigências contratuais, palco com tamanho mínimo de 5 m de frente por 3 m de profundidade e o camarim deveria ter: espelho, poltronas, toalhas, água mineral, refrigerantes e outras bebidas, sendo vedada a permanência de terceiros ou estranhos nesse local. As despesas de viagem correram por conta do empresário, cabendo ao contratante todas as despesas de estadia e refeições para oito pessoas em hotel de primeira categoria, ou no melhor hotel da cidade.

A decoração do ginásio de esportes da AABB ficou a cargo do Jurandir Severino, artista da melhor qualidade, que vai completar 83 anos em agosto do corrente ano e se encontra em plena atividade. Eu fui convidado a apresentar o show e antes conversei com o Renato. Alguns fãs assistiram a tudo: Alaor Mattos “Peixe”, Jorge Lenzi “Cabelo”, Jurandir Severino, Magal, “Markito” Franzoi, Miguel Giusti e o nosso inesquecível “Birinha” Pedro Soltes. A entrevista, filmada pela minha filha Caroline, teve a participação, além do próprio Renato, dos músicos Amadeu Signorelli (baixo), Cid Rodrigues Chaves (sax, vocais) Darci Velasco (teclados e vocais) e Gerson Moraes (bateria) e foi para o livro.

Confira no Youtube (www.youtube.com/watch?v=JebHhAeYtg4)

A importância da banda foi comprovada pelo lançamento, em 2005, de uma caixa com 16 CDs, organizada pelo pesquisador Marcelo Fróes, que escreveu textos para cada um dos álbuns apresentados. Conhecidos como “Os Beatles Brasileiros”, eles gravaram diversas versões da banda inglesa, além de se inspirar na obra do genial quarteto para compor outras tantas.

Renato e Seus Blue Caps são citados em um livro lançado em 1982 na Inglaterra, “The Beatles at the Beeb - 1962-1965”, de Kevin Howlett, que fala sobre todas as canções que os Beatles apresentaram na Rádio BBC, citando regravações e versões delas feitas mundo afora: “Sou feliz dançando com você” “Menina linda”; e “Sou tão feliz”, o que nos autoriza a dizer que a banda traduziu os Beatles para os brasileiros.

As músicas e os respectivos álbuns, com o nome do versionista

LP “VIVA A JUVENTUDE!” - 1964, CBS

Menina linda - “I should have known better” (Lennon-McCartney-Renato Barros)

Sou feliz dançando com você - “I’m happy just to dance with you” (Lennon-McCartney-Lilian Knapp)

Garota malvada - “I call your name” (Lennon-McCartney-Renato)

LP “ISTO É RENATO E SEUS BLUE CAPS” - 1965, CBS

Feche os olhos - “All my loving” (Lennon-McCartney-Renato)

Eu sei - “I`ll be back” (Lennon-McCartney-Renato)

Meu primeiro amor - “You’re gonna lose that girl (Lennon-McCartney-Lilian)

Sou tão feliz - “Love me do” (Lennon-McCartney-Renato)

LP “UM EMBALO COM RENATO E SEUS BLUE CAPS” - 1966, CBS

Até o fim – “You won’t see me” (Lennon-McCartney-Lilian)

Gosto de você- “Tell me what you see” (Lennon-McCartney-Paulo César Barros)

Dona do meu coração – “Run for your life (Lennon-McCartney-Renato)

LP RENATO E SEUS BLUE CAPS - 1967, CBS

Ana (Anna go to him) (Alexander-Renato Barros, creditada a Lisna Dantas)

LP ESPECIAL - 1968 (CBS)

Escreva logo – “Please, Mr. Postman” (Holland-Gorman-Renato Barros)

LP RENATO E SEUS BLUE CAPS - 1969 (CBS)

Não volto mais - Paperback writer (Lennon-McCartney-Renato Barros)

LP RENATO & SEUS BLUE CAPS - 1977

O que eu posso fazer – “Baby’s in black” (Lennon-McCartney-Fernando Adour)

Tudo o que eu sonhei – “If I fell” (Lennon-McCartney-versão Fernando Adour)

AVULSAS Existem duas gravações dos anos 60, a primeira gravada na mesma sessão do LP de agosto de 1965, que ficou fora do disco por já terem sido escolhidas as 12 músicas para o LP:

Tão má pra mim - “Bad to me” (Lennon-McCartney- Renato Barros)

A outra, gravada em 1964, “O bode e a cabra”, é uma paródia de “I wanna hold your hand” (versão de Maurileno Rodrigues, embora creditada a Renato Barros) e mais tarde gravada pela Rita Lee.

E é bom lembrar do LP lançado em 1977 por outro dos irmãos Barros: “Paulo Cesar interpreta os grandes sucessos dos Beatles”. Lá no início também participaram Roberto Simonal no sax, Ed Wilson (irmão do Renato) e Erasmo Carlos nos vocais.

A resistência ao sucesso dos músicos ingleses George Harrison, John Lennon, Paul McCartney e Ringo Starr veio do próprio Erasmo, que chegava de topete erguido e ousava declarar guerra à contundente explosão britânica dos Beatles, criticando seu sucesso com ares de inveja. Ao lançar seu primeiro álbum, em 1965, o futuro “Tremendão” iniciava a faixa “Beatlemania” com acordes de “I wanna hold your hand”, cantando de forma agressiva esses versos:

Vou acabar com a beatlemania/ Que atacou o meu bem é a ordem do dia/ Cabelo comprido, nunca foi prova de ser mal./ Se eu não puder na mão, eu brigo até de pau/ Podem vir todos quatro, que eu não temo ninguém. Só não quero que fiquem alucinando meu bem/ Tenham calma amigos, a paz vai voltar/ Pois com a beatlemania eu prometo acabar!

O tom marcial daquele rock parecia um chamado à guerra, mal disfarçando a vontade de também ser um dos quatro cabeludos de Liverpool. Contando com o acompanhamento musical dos “Blue Caps”, a composição é atribuída ao Erasmo e ao Renato, que nega a parceria, atribuindo a algum engano da gravadora, ou da editora. Erasmo só gravaria Beatles em 1984, quando cantou com Zé Ramalho “O tolo na colina”, versão de “Fool on the hill”.

Eu não conheço a Lucinha pessoalmente, mas temos paixão por essas duas bandas maravilhosas e ambos visitamos o Museu dos Beatles, no Rio Grande do Sul, onde estivemos em datas diferentes. Criado e mantido pelo empresário André Luiz “Xuleta” Trierveiler, que já trouxe a Joaçaba a Banda Star Beatles, esse museu é o primeiro dos Beatles no Brasil e o terceiro no Mundo. Seu acervo é para endoidecer o visitante, ali a gente se abastece por um bom tempo. Visita indispensável no roteiro de quem visita a Serra Gaúcha.

A beatlemania aconteceu durante a década de 1960, mas seus efeitos se estendem até os dias atuais.

Assim, entre memórias, discos, entrevistas e histórias que atravessam décadas, fica a certeza de que a música tem esse poder raro de vencer o tempo. Renato e Seus Blue Caps não apenas traduziram as canções dos Beatles —traduziram também um sentimento, uma época, uma juventude inteira que aprendeu a sonhar ao som das guitarras.

E talvez seja por isso que, ao fechar os olhos, como no início deste texto, ainda conseguimos ouvir aqueles acordes ecoando, vivos, pulsantes, como se nunca tivessem ido embora. Porque não foram! Permanecem em cada lembrança, em cada gravação, em cada fã que insiste em reviver aqueles anos dourados.

No fim das contas, os “Beatles Brasileiros” não fizeram apenas uma homenagem - foram e sempre serão parte essencial dessa história. E enquanto houver alguém disposto a apertar o play, a beatlemania, em qualquer idioma, continuará eterna.


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