por Antonio Carlos “Bolinha” Pereira
A poesia é uma das formas mais antigas e complexas de expressão humana. O que nela nos atrai: a capacidade de expressar sentimentos profundos ou a beleza técnica da construção dos versos? Ela não é apenas um gênero literário, mas uma maneira de ver e organizar o mundo através da linguagem.
“O poeta é um fingidor. Finge tão completamente, que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente...” decretou Fernando Pessoa. A poesia é uma espécie de conversa emocionada e pode registrar, para a História, o espírito vivido em determinada época, pois serve de fonte, construção e subsídio para o historiador entender acontecimentos, classificar o momento social, econômico e político de vários ângulos e a situação emocional de um povo.
A poesia clássica é focada em métrica rigorosa — como o soneto, com seus versos decassílabos e estruturas fixas. Porém, a partir de meados do século XX houve uma ruptura com a métrica tradicional, valorizando o verso livre e a exploração do cotidiano, conhecido como poesia moderna. A repetição de sons no final ou interior dos versos deixou de ser obrigatória em poemas contemporâneos.
“É melhor ser alegre que ser triste... alegria é a melhor coisa que existe” afirmou Vinicius de Moraes, que se dizia influenciado por clássicos como o inglês William Shakespeare, o francês Arthur Rimbaud e o americano T. S. Eliot, mas soube dar aos seus escritos ares coloquiais.
Parodiando o “Poetinha”: “Fazer poesia não é contar piada... quem faz poesia assim, não é de nada”. Realmente, a poesia não é brincadeira, não. Ela tem acompanhado a humanidade desde os primórdios, e aparece entre os primeiros registros da maioria das culturas letradas. O mesmo Vinicius nos legou o "Soneto da Fidelidade", que celebra a intensidade do amor e a sua perenidade: "Que não seja imortal, posto que é chama / Mas que seja infinito enquanto dure".
Aqui na Terrinha são muitos os exemplos que nos orgulham, muitos deles presentes no Livro do Centenário de Joaçaba.
Carmen Rejane Cella, ilustre poetisa e escritora joaçabense, destacou-se nacionalmente por suas várias obras publicadas. A Academia de Letras do Brasil de Santa Catarina, ALB/SC, lhe reconheceu honra ao mérito pela atuação artística e literária, com excelência e dignidade, contribuindo para difundir os ideais daquela Academia.
“As janelas da alma, roteiro do samba-enredo.
O carro abre alas, coreografia das cortinas;
Tecido na fantasia da comissão de frente, sem medo
Pede passagem com precisão das serpentinas.
O adereço de seu coração dará o ritmo,
para aquecer as fantasias de sua bateria;
Permita que os sonhos emocionem meu biorritmo,
Una o belo e a criatividade atravesse a alegria.
Personalize a harmonia dos tons com inovação,
Ao atravessar a avenida a beleza em sintonia,
Vibre com entusiasmo, breque a dor neste dia...
Alegoria potencial, deste cenário, és a emoção.
Janelas da alma, com emoção e mote desta alegoria;
Equalize seu coração, curta a felicidade e alegria.”
Outro dia, fui procurado para escrever o prefácio de um livro de poemas. Sim, poesia! em pleno século 21. Fiquei feliz, reacendeu em mim a esperança de melhores dias o poeta Fernando Cabral, que definiu em
“Segredo: Porque a poesia
É pra ser falada
Mas há tanta gente
Que a sente
E não diz nada
O poeta só usa as palavras”
Podemos pensar na poesia como a busca pelo essencial: ao contrário da prosa, que pode se permitir o detalhamento extensivo, a poesia busca a palavra exata, o corte preciso, removendo o excesso com arte, para que a alma do pensamento apareça. A poesia não se entrega a quem não a busca.
Lembro com saudade da poetisa June Russowsky e sua obra "A dor não dorme", filha do renomado médico Miguel Russowsky, Diretor Literário da Scajho, que é considerado o mais importante sonetista em língua portuguesa do fim do século passado e início do atual. Excelente trovador, poeta clássico que fazia poesia moderna, teatrólogo com peças publicadas e representadas, bom prosador, premiado em concursos literários nacionais e internacionais.
Seu sucessor na função é Jaime Telles, compositor do “Hino a Frei Bruno”, entre outras obras que celebram nossa terra e nossa gente. Poeta, escritor, compositor, músico, cantor, locutor, agente cultural. Criador e apresentador do tradicional “Encontro de Violeiros” e de saraus musicais no Teatro Alfredo Sigwalt, membro do Conselho Estadual de Cultura e da ALB/SC.
E no Álbum do Cinquentenário de Joaçaba o sempre lembrado mestre Alexandre Muniz de Queiroz registrou, surpreso, um achado de última hora: textos de Ovídio Chaves, então considerado “o maior poeta joaçabense”, laureado pela Academia Brasileira de Letras por seu livro “ABC de Paquetá” e autor da letra de “Fiz a cama na varanda”, que a cantora lírica Dilu Mello musicou em 1944 e recebeu diversas gravações. Ovídio foi aluno interno do Colégio Marista Frei Rogério e deixou versos formidáveis:
“Custou, mas resolvi. De madrugada com surpresa geral da vizinhança um trenzinho partia: e eu, de mudança! E que coisas sonhei, depois, na estrada. Por fim a grande viagem esperada, cheia de pensamentos! Eu, criança, tinha os olhos felizes. (tudo cansa, menos lembrar-se a vida já passada...). Em meio da bagagem (o destino!) vinha — com que cuidados! — um violino: que sonho, estudar música... — E afinal? Deus não quis: tudo foi tão diferente!... Nosso Senhor é assim: surpreende a gente,e um dia eu vi meus versos num jornal...”
Lá nas Terras d’Além Mar, Bocage (Manuel Maria Barbosa du Bocage) escandalizava a todos no século 18, com seus escritos de duplo sentido:
“Quer seja curto ou comprido. Quer seja fino ou mais grosso, é um órgão muito querido por não ter espinhas nem osso. De incalculável valor: ninguém tem um a mais e desempenha no amor um dos papéis principais. Quando uma dama aparece ei-lo a pular com fervor. Se é um rapaz, estremece. Se é velho, tem pouco vigor. O seu nome não é tão feio pois tem sete letrinhas só. Tem um R e um A no meio, começa com C e acaba em O... Nunca se encontra sozinho, vive sempre acompanhado por outros dois órgãozinhos junto de si, lado a lado. O nome destes, porém, não gera confusões: tem sete letras também, tem L e acaba em ÕES. Para acabar com o embalo e com as más impressões: Os órgãos de que eu falo, são… o coração e os pulmões.”
Ser Escritor é reinventar o Mundo! Quando transformamos uma vivência em palavras que tocam o coração, estamos poetizando a nossa própria história. A poesia é a arte de condensar o infinito em poucas palavras, pois não descreve o mundo apenas pelo que ele é, mas pelo que ele sente ser. É a linguagem da subjetividade, onde a métrica, o ritmo e a escolha com precisão do vocabulário servem para capturar uma emoção que, de outra forma, seria indizível. A poesia é algo intrigante, que suscita diversas dúvidas como: o que é poesia? para que serve? por que só alguns, embora muitos tentem, conseguem ser poetas?
Tenho cá comigo que, para fazer poesia, o sujeito, além da sensibilidade, deve usar lápis e papel. Escrever à mão ajuda a pensar, faz melhorar o raciocínio, a linguagem e a memória. Em termos gerais, a poesia é predominantemente oral — mesmo quando escrita, a oralidade aparece sempre como referência quase obrigatória, aproximando muitas vezes essa arte da música. Aliás, há quem considere o poema musicado uma arte menor. Mas, sem a música do maestro Spartaco Rossi, não seria lembrado por tantas gerações o belo poema de Guilherme de Almeida: “por mais terras que eu percorra, não permita Deus que eu morra, sem que volte para cá!”
Ao longo dos séculos, a poesia atravessou fronteiras, sobreviveu às mudanças de estilo e de linguagem e continua encontrando espaço no coração de quem escreve e de quem lê. Dos sonetos clássicos aos versos livres, das páginas dos livros às canções que embalam gerações, ela permanece como uma das mais belas formas de traduzir aquilo que muitas vezes escapa à prosa: o amor, a saudade, a esperança, a indignação e o encanto diante da vida. Enquanto houver sensibilidade para enxergar beleza nas pequenas coisas e coragem para transformar sentimentos em palavras, a poesia jamais deixará de existir.
Talvez seja justamente esse o seu maior poder: lembrar-nos de que a vida também se constrói de emoções, lembranças e sonhos. Em um mundo marcado pela velocidade e pelo excesso de informações, o poema convida à pausa, à reflexão e ao encontro consigo mesmo. Afinal, a poesia não pertence apenas aos grandes escritores ou aos livros consagrados; ela também floresce no olhar atento, na memória afetiva e na capacidade de cada pessoa de descobrir, nas palavras, uma forma de eternizar aquilo que o tempo jamais conseguirá apagar.
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