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JORNAL O TEMPO

A Liberdade Limitada & Adolfo Zigelli

Antonio Carlos “Bolinha” Pereira, joaçabense

Entre nós, Adolfo Zigelli é lembrado por dar nome ao Acesso Oeste de Joaçaba. O Prefeito de Joaçaba, Raul Furlan, sancionou a Lei nº 786 de 25 de setembro de 1975, que denominou "Avenida ADOLFO ZIGELLI a via pública que, constituindo o denominado acesso Oeste, inicia na Avenida Duque de Caxias, e termina na intersecção da BR 282”. Mas vamos voltar um pouco no tempo — para ver como a família Zigelli passou a fazer parte da nossa história.

 Nos anos 1950 Joaçaba era uma cidade pacata. Noventa por cento das casas eram ainda de madeira e à noite as famílias se reuniam para tomar chimarrão nas calçadas – costume trazido do Rio Grande do Sul. Naquela época “pré-televisão”, Joaçaba foi pioneira em comunicações no interior catarinense: dois cinemas (Cine Progresso e Cine Imperial), duas rádios (Catarinense e Herval d’Oeste), três jornais (Joaçaba Jornal, Tribuna Livre, Cruzeiro do Sul).

Na década de 1930, um casal de imigrantes do Norte da Europa decidiu vir morar no Brasil e escolheu como destino a região Meio-Oeste de Santa Catarina, às margens do Rio do Peixe. Aqui, nesse pedacinho do paraíso, conhecido então como Cruzeiro do Sul, hoje Joaçaba, os romenos Guilherme e Olga Zigelli constituíram sua família brasileira, com o nascimento dos filhos Walter, Gertrudes e Adolfo. O pai, Guilherme Zigelli, queria apenas trabalhar. Ele, que havia lutado como soldado do Império Austro-Húngaro, desiludiu-se com a guerra e resolveu mudar de país. Durante muito tempo foi o administrador do núcleo colonial Papuan, hoje município de Treze Tílias. Dono de instrução acadêmica avançada, verteu para o alemão o romance “Olhai os Lírios do Campo”, de Érico Veríssimo.

O primogênito, Walter Zigelli, nascido em 1933, bacharelou-se em Direito pela Universidade Federal de Santa Catarina.

Segundo a pesquisadora Lucivani Gazzóla, na década de 1960, ao lado de outros expoentes da cultura local, a jovem Gertrudes Zigelli participou do Coro Cênico da Scajho.

Adolfo Zigelli, o caçula, também nasceu em Joaçaba, a 12 de março de 1936. Ingressou na Rádio Catarinense como locutor noticiarista aos 14 anos (sim, a gente podia trabalhar desde cedo, como cidadão participante, ajudando a família e a própria formação).

Atento a tudo, logo se destacou produzindo e apresentando programas políticos, sendo convidado para ser o assessor de comunicação do governador eleito de Santa Catarina, Jorge Lacerda, juntamente com o irmão Walter, graças à indicação de Brasilio Celestino de Oliveira, à época Secretário de Interior e Justiça, que assumira a proteção dos filhos de Olga e Guilherme Zigelli, que haviam falecido.

Na capital, a partir de maio de 1956, Adolfo implanta na Rádio Diário da Manhã as bases do radiojornalismo profissional em Santa Catarina, criando programas informativos, como Vanguarda, líder de audiência. Jornalista com atuação destacada também na televisão, Adolfo atendeu convite do governador Antônio Carlos Konder Reis e assumiu, em 1975, como o primeiro Secretário de Imprensa no Brasil.

Em 1970, a formatura da Turma de Direito da UFSC foi realizada no Teatro Álvaro de Carvalho, e o patrono da turma era Jarbas Passarinho, Ministro da Educação e Cultura. Eram tempos de liberdade limitada, período marcado pelo recrudescimento do regime militar: cassações de mandatos parlamentares, intervenções em sindicatos, denúncias de violações dos direitos humanos, aumento do rigor da censura prévia à imprensa (tal como se veria, muitos anos depois, no mesmo Brasil brasileiro... você concorda??)

O orador escolhido pelos colegas foi Adolfo Zigelli. E que colegas, e o que viriam a se tornar: governador Esperidião Amin, jornalista Moacir Pereira, magistrado João Alfredo Medeiros Vieira, ministro Manoel Dias e o conterrâneo Markian Getulio Kalinoski, também radialista.

Em sua oratória, Adolfo criticou os desvios da conjuntura e posicionou-se pelo restabelecimento dos direitos, crítica feita com inteligência e sabedoria, um tiro certeiro no alvo, sem mencioná-lo explicitamente.

Adolfo ficou em Florianópolis e Walter retornou para Joaçaba, onde disputou a eleição para vereador em 1958 com Nelson Pedrini, sendo ambos eleitos. Na eleição seguinte, em 1962, os dois joaçabenses foram eleitos deputados para a 5ª legislatura da Assembleia Legislativa de Santa Catarina, entre 1963 e 1967: Walter Zigelli pela UDN, União Democrática Nacional e Nelson Pedrini pelo PSD, Partido Social Democrático — os dois partidos foram extintos pelo Ato Institucional nº 2 (AI-2) em 1965.

Em depoimento, nosso saudoso amigo Nelson Pedrini, advogado, vereador, deputado estadual e ferrenho adversário político de Adolfo Zigelli, destacou o zelo e o capricho que percebia desde os tempos de colégio: “Lembro perfeitamente que o Adolfo já era uma inteligência fulgurante. Era, se não o primeiro da sala de aula, um dos primeiros e já denotava, pelo seu espírito irrequieto, pela sua persistência, o homem de rádio, o político, o comentarista, o cronista que viria a ser. Aquele espírito de luta, muito próprio dos homens que nasceram no Oeste, talvez pelo terreno dobrado, pelo calor, por sermos descendentes de pioneiros que colonizaram a região, esse espírito de luta, de bravura, que o Adolfo tão bem soube arraigar, ele levou para o litoral de Santa Catarina”.

E completa: “Ele foi um adversário impiedoso, mas respeitoso e respeitado por mim e pelos ouvintes. Por sua retidão de caráter e posições políticas inalienáveis o Adolfo não se curvava a ninguém. Nós costumávamos ouvir a Rádio Guarujá, que transmitia os escritos do jornalista Rubens de Arruda Ramos, líamos o jornal O Estado, mas também escutávamos os comentários que o Adolfo fazia pela Rádio Diário da Manhã — aquela Marcha dos Acontecimentos, que era a banda de música permanente e diária a embalar o entusiasmo dos udenistas, não só da capital, como do interior do estado.”

Sua morte precoce aos 39 anos interrompeu uma das carreiras mais brilhantes da crônica catarinense. Seu legado permanece vivo e continua sendo estudado como padrão-ouro de imparcialidade e coragem na imprensa regional. Ele morreu em um trágico acidente aéreo em 31 de agosto de 1975, quando vinha a Joaçaba no bimotor prefixo PT-IQG para receber homenagem do Rotary.

O mesmo desastre vitimou Sérgio Pretto, chefe de gabinete de Ivan Oreste Bonato (então Secretário da Fazenda de Santa Catarina), e seu irmão Ayrton Pretto, superintendente do Fumdesc (Fundo de Apoio à Manutenção e ao Desenvolvimento da Educação Superior Catarinense) e os dois pilotos.

A trajetória de Adolfo Zigelli nos deixa uma lição que ultrapassa o tempo e as circunstâncias políticas: a liberdade de expressão exige coragem, inteligência e, sobretudo, responsabilidade. Em uma época de liberdade limitada, ele soube encontrar nas palavras o caminho para questionar, provocar reflexões e defender suas convicções, sem abrir mão da ética e do respeito. Seu humor inteligente, suas críticas certeiras e sua postura independente fizeram dele muito mais do que um comunicador: transformaram-no em uma referência para o jornalismo catarinense e em um exemplo de que a verdadeira liberdade não está em dizer aquilo que todos desejam ouvir, mas em ter coragem de dizer aquilo que precisa ser dito.

Joaçaba pode orgulhar-se de ter sido o berço de um homem que levou o nome de sua terra para além das fronteiras do Oeste catarinense. Sua articulação política foi decisiva, por exemplo, para viabilizar a construção da Ponte Colombo Salles na capital. A vida de Adolfo Zigelli foi breve, mas sua contribuição permanece ao longo do tempo, registrada na história do rádio, na memória de seus contemporâneos e nas páginas que continuam a contar sua trajetória. Afinal, vozes podem se calar, mas ideias não desaparecem. E, quando são sustentadas pela inteligência, coragem e honestidade, atravessam gerações. Adolfo partiu precocemente, mas deixou a certeza de que a liberdade pode até ser limitada por um tempo, mas jamais superará a força de uma consciência verdadeiramente livre.

PARA LER: “As Soluções Finais”, crônicas escritas por Adolfo Zigelli (Ed. Lunardelli, 1975); “Adolfo Zigelli – Jornalista de Vanguarda”, de Moacir Pereira (Ed. Insular, 2000); “Caros Ouvintes – Os 60 anos do rádio em Florianópolis”, de Antunes Severo e Ricardo Medeiros (Ed. Insular, 2005); “A vida de Adolfo Zigelli”, de Elissa Bonato e Nara Cordeiro (Ufsc, 2002)


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