LACERDÓPOILIS CELEBRA A INAUGURAÇÃO DA QUADRA POLIESPORTIVA GUSTAVO BONAMIGO PRANDO |
Prof. Dr. Adelcio Machado dos Santos Jornalista (MT/SC 4155)
Em primeiro lugar, Alberto Guerreiro Ramos foi um dos mais originais e ousados intérpretes do Brasil no século XX, articulando Sociologia, teoria política e compromisso prático com a transformação nacional. Nascido em 1915, na cidade de Santo Amaro da Purificação, na Bahia, e falecido em 1982, nos Estados Unidos, Guerreiro Ramos construiu uma trajetória intelectual marcada pela recusa da dependência cultural e pela defesa de uma ciência social comprometida com a realidade histórica brasileira. Sua obra e sua atuação pública o consagram como um sociólogo a serviço da revolução brasileira, entendida não como ruptura violenta, mas como processo profundo de emancipação nacional, modernização autônoma e construção de um projeto próprio de desenvolvimento.
De outro vértice, a sua formação intelectual esteve vinculada à consolidação das ciências sociais no Brasil, dialogando criticamente com instituições como a Fundação Getúlio Vargas e o Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB), espaço no qual desempenhou papel central. O ISEB tornou-se, na década de 1950, um dos principais núcleos de formulação de um pensamento nacional-desenvolvimentista, reunindo intelectuais comprometidos com a superação do subdesenvolvimento e com a afirmação da soberania brasileira.
Destarte, nesse ambiente, Guerreiro Ramos aprofundou sua crítica à importação acrítica de teorias estrangeiras e defendeu a necessidade de uma sociologia autenticamente brasileira, suscetível de interpretar o país a partir de suas próprias contradições históricas.
Uma de suas contribuições mais conhecidas é a crítica à chamada “sociologia consular”, expressão que utilizou para designar a postura de intelectuais que reproduziam modelos teóricos europeus e norte-americanos sem mediação crítica. Para ele, o Brasil não poderia ser compreendido como mera réplica imperfeita das sociedades centrais do capitalismo. Era necessário construir categorias analíticas ajustadas à condição periférica, ao passado colonial, à formação escravocrata e à heterogeneidade estrutural do país. Essa perspectiva o aproxima de outros intérpretes do Brasil, como Florestan Fernandes e Celso Furtado, embora sua abordagem se distinguisse pelo esforço sistemático de fundamentar uma teoria da organização social voltada para a práxis transformadora.
Por conseguinte, o projeto de revolução brasileira, em Guerreiro Ramos, está associada à construção de República forte, planejador e orientado pelo interesse público. Ele acreditava que a superação do atraso exigia reformas estruturais e uma elite dirigente consciente de sua responsabilidade histórica. Nesse sentido, sua sociologia não era neutra nem puramente acadêmica: era uma sociologia engajada, voltada para a prática política e administrativa.
Outrossim, ao militar na Administração Pública, inclusive no exercício da deputança, buscou articular teoria e ação, defendendo reformas que ampliassem a racionalidade do Estado e reduzissem a dependência externa.
Contudo, o Movimento de 1964 interrompeu brutalmente esse projeto intelectual e político. O ISEB foi fechado, e muitos de seus membros foram perseguidos. Guerreiro Ramos teve seus direitos políticos cassados e, posteriormente, exilou-se nos Estados Unidos, onde lecionou e continuou a produzir reflexão crítica. Mesmo fora do país, manteve o compromisso com a análise das patologias da modernidade e com a crítica à racionalidade instrumental dominante nas sociedades contemporâneas. Em obras posteriores, desenvolveu a chamada “nova ciência das organizações”, propondo uma visão substantiva da racionalidade, distinta da lógica puramente utilitária do mercado.
Entretanto, o eu pensamento articula nacionalismo, crítica ao colonialismo cultural e preocupação ética com os fins da ação social. Para ele, a revolução brasileira implicava a reconstrução das bases culturais e institucionais do país, de modo a permitir que a sociedade se tornasse sujeito de seu próprio destino. Não se tratava de copiar modelos estrangeiros, mas de reinterpretá-los à luz das necessidades nacionais. Essa postura o torna atual em um contexto de globalização e persistente desigualdade, no qual o dilema entre dependência e autonomia continua presente.
Entretanto, ao afirmar a necessidade de uma sociologia comprometida com o desenvolvimento autônomo, Guerreiro Ramos recolocou a questão do papel do intelectual na sociedade. O sociólogo, em sua perspectiva, não deveria limitar-se à descrição distante dos fenômenos sociais, mas assumir responsabilidade pública na formulação de projetos coletivos. Tal concepção aproxima-o de uma tradição de pensamento crítico latino-americano que vê na teoria uma ferramenta de emancipação.
Em epítome, Guerreiro Ramos permanece, à guisa de referência incontornável para quem busca compreender os desafios históricos do Brasil. Sua obra convida à reflexão sobre a dependência cultural, a função do Estado, a ética na vida pública e a necessidade de um projeto nacional.
Por final, ao colocar a sociologia a serviço da revolução brasileira, ele reafirmou que o conhecimento social pode ser instrumento de libertação e que a construção de uma nação soberana exige não apenas crescimento econômico, mas também consciência crítica, coragem intelectual e compromisso com o bem comum.
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