Prof. Evandro Ricardo Guindani Universidade Federal do Pampa - Unipampa
É cada vez mais frequente, a circulação de vídeos produzidos artificialmente, com mentiras e distorções de imagens, vozes e ideias…
Tudo isso se desenvolve dentro de um contexto sociocultural marcado por uma cultura do imediatismo e da superficialidade. As pessoas querem resultados rápidos, práticos, preferencialmente simples. Tudo o que é mais demorado, que exige mais tempo, passa a ser desprezado e até colocado de lado, como por exemplo, o abandono dos livros, da leitura… Bibliotecas silenciosas e solitárias não recebem mais os passos silenciosos de leitores curiosos. Ao contrário, telas de celular se tornam a obsessão de crianças, jovens e adultos…
E o que mais? Igrejas, lideranças religiosas arrebanham cada vez mais e mais pessoas para seus espaços e discursos sedutores, mágicos, emotivos e promissores… Apresentam respostas simples para problemas complexos, como por exemplo, a origem da vida, o sofrimento, a morte… Em troca de uma reflexão profunda, te oferecem uma crença simplista, baseada numa interpretação simplificada de um texto “sagrado” extremamente complexo. Para enfiar a crença na cabeça de seu rebanho, produzem vídeos e músicas que são compartilhados entre os “irmãos” da mesma fé. E nestes grupos de aplicativos de mensagens são compartilhadas crenças e valores morais.
A ciência que pode oferecer um saber mais sólido e com fundamentos passa a ser desprezada, porque exige mais tempo, mais paciência, para você ler, ouvir e refletir. Em substituição a isso, você prefere algo mais rápido, enviado pelo seu amigo, irmão de fé, que já vem com o selo da autoridade divina e consequentemente, de sua confiança…
Há um círculo que se fecha em torno da crença, da afetividade e da adesão a uma autoridade, seja ela em relação a um líder religioso ou à tecnologia do celular e internet…
É comum ouvirmos reproduções de ideias, por parte de pessoas que apenas dizem: “está na internet”... Era como antigamente diziam: “passou na TV”... Ou: “O pastor, o padre falou…”
É mais fácil acreditar, do que tentar entender e compreender. A compreensão racional dos fatos exige desconfiança, dúvida, descrença, desmobilização, movimento, crise, incerteza… É um preço muito caro a ser pago diante de uma vida corrida, cheia de preocupações, compromissos, dívidas, problemas emocionais…
É muito mais simples, rápido, você pegar seu celular, tomar sua cervejinha e acreditar, e compartilhar, baseado na crença e na sua emoção…
E é nesse exato momento que você cai em muitas armadilhas da chamada inteligência artificial que hoje permite produzir mentiras com aparência de verdade. Nada contra à inteligência artificial que veio para nos auxiliar em muitas coisas, mas sim, à forma como a mesma é utilizada para enganar.
A democracia perde muito com isso, porque as pessoas mudam suas opiniões a partir de vídeos e memes compartilhados pela internet, e não se detém ao contexto político partidário de cada candidato. Que sociedade ele defende? Que história de vida ele possui em defesa da justiça social, do bem comum? Que ideias defende o partido, de esquerda, direita ao centro? Infelizmente este conhecimento você não vai adquirir em vídeos compartilhados no seu whatsapp… A democracia está em crise, e diante disso, surgem candidaturas extremistas e milagrosas, que buscam se eleger vendendo emoções e crenças… Infelizmente…
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