ELOI CORREIA: UMA VIDA MARCADA PELAS BANDAS, FANFARRAS E PELA FORMAÇÃO DE GERAÇÕES |
Por Jaime Telles
Desde a frota de Cabral, que alcançaria estas terras em 1500, o mundo ainda se encanta com esta porção do planeta que parecia não ter fim.
Era mata, água, abundância e horizonte. Sem cogitar, ainda sobre terras raras. Era o próprio céu, imenso e inaugural, testemunhando o encontro de mundos que jamais voltariam a ser os mesmos.
Era tudo bom demais para ficar como estava.
Ergueram vilas, abriram caminhos, construíram cidades, desenharam fronteiras. Gerações nasceram, trabalharam, lutaram e morreram até que aquele território imenso começasse a compreender-se como nação.
Séculos depois, às margens de outro curso d’água, retumbou o brado que mudaria o curso da nossa história:
Independência ou morte!
Não tivemos tanta sorte.
Porque independência é dessas palavras grandes demais para caber num grito.
Enganou-se quem considerou forte demais a palavra morte naquele contexto. A independência é, antes de tudo, livramento — e todo livramento contraria os interesses daqueles que lucram com a dependência. O preço da soberania sempre foi alto nas bolsas do poder.
Mas seria outro Pedro, seu filho, ciente de que uma nação não sustenta soberania sem a força do conhecimento.
Dom Pedro II, líder culto, poliglota e entusiasta das ciências e das artes. Se monarquistas e românticos criaram o mito do governante perfeito, um herói infalível e quase santo, não demorou para que ferrenhos adversários o pintassem como um velho cansado, apático, fraco e alheio aos problemas do país. Se lá por 1889 já tiveram estômago para engendrar a farsa do "Pedro Banana", nem podemos estranhar o que fazem hoje os que preferem deseducar para permanecer. Porque rico e encantador ainda é este esplêndido berço. Talvez mais forte agora, como se criasse musculatura cerebral, pois sua neuroplasticidade é resultado da luta secular contra a cobiça, que lhe marcado com profundas cicatrizes. E cicatriz é assinatura da sobrevivência.
Mais de duzentos anos depois, o Grito do Ipiranga continua ecoando.
Que jamais permitamos que o trono simbólico da soberania popular seja novamente manchado pela lama da ignorância.
Que a palavra Cultura, assim mesmo, com C maiúsculo, seja finalmente desacorrentada das masmorras onde tantas vezes foi aprisionada, amordaçada ou reduzida a instrumento propositalmente desafinado ou ferramenta cega.
Que o brilho da espada da verdade e do conhecimento possa fulgurar "do Oiapoque ao Chuí", como desejava o “Bom Pedro”, cuja imagem deturparam e cuja cadeira passou a ser ocupada pela ignomínia que gruda feito ferrugem e fede a enxofre.
Planejaram, executaram se locupletaram com a desdita anunciada com pachorra e desplante. Não obstante breve hiato de respiro de esperança, a história contará longas páginas de tirania, aparelhamento e risos escárnios, à custa de pobreza humilhante e desapego à produção.
Com ação, ao invés de contar com a sorte, que retomemos desde as linhas de caderno até as combinações do algoritmo a sonhada independência do melhor país da Terra, retomando o suave caminho do saber, há muito abandonado.
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