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O TEMPO DE FATO

MACHADO DE ASSIS

por Antonio Carlos “Bolinha” Pereira, leitor contumaz desde os 6 aninhos

       Joaquim Maria Machado de Assis nasceu em 1839 no Rio de Janeiro e faleceu em 1908, na mesma cidade. Neto de escravos, filho da açoriana Maria Leopoldina Machado e do pintor de letreiros Francisco José de Assis, desde menino sofria com problemas intestinais e de visão, gagueira e epilepsia. Para disfarçar a origem humilde, superar barreiras sociais e preconceitos de raça e de classe adotava um ar de lorde inglês e vestia trajes conservadores.

Trabalhou como tipógrafo na Imprensa Nacional e, quando o chefe não estava, dedicava as horas de trabalho à leitura, mas, em vez de levar uma bronca ganhou aumento de salário, pois o diretor era também escritor e reconheceu um futuro brilhante no garoto dedicado, que escrevia poemas para jornais e revistas.

       Casou em 1869 com a imigrante portuguesa Carolina Novais, apesar da proibição da família dela, que não admitia o casamento com um mulato. Cansada da censura dos irmãos, afirmou a eles: “Não estou pedindo licença, estou comunicando meu casamento”. Mas com o passar do tempo e o reconhecimento do seu talento ele virou o orgulho da família. Machado levantava por volta das cinco horas para rabiscar as primeiras linhas do dia e às dez da manhã, ao sair para o trabalho, deixava os textos inacabados. A esposa, culta e versada em gramática, os corrigia e retocava.

      Autodidata, amplamente reconhecido como o maior expoente da literatura nacional, dominou praticamente todos os gêneros literários e revolucionou a literatura com a análise psicológica da elite carioca do século XIX. Machado foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras (ABL), foi eleito seu primeiro presidente em 1897 e permaneceu no cargo até morrer.

      Embora tenha sido escrita na segunda metade do século XIX, sua obra permanece extremamente atual e atravessou dois grandes períodos: o Romantismo e o Realismo, influenciando gerações de escritores brasileiros e estrangeiros ao estabelecer um novo paradigma para a narrativa literária entre o impacto local e o reconhecimento global.

Seu legado destaca romances, contos, crônicas e poesias. Entre os romances mais célebres destacam-se: O Alienista (1882), Dom Casmurro (1899) e contos antológicos como A cartomante, A missa do galo e O espelho, que consolidaram sua maestria na forma curta.

Eu nunca tinha lido nada de Machado de Assis e, há alguns anos, tive a curiosidade despertada na sala de espera de um consultório médico, pelo título da publicação: “Um Apólogo”. Pesquisando, aprendi que apólogo é um gênero textual narrativo em prosa ou verso, geralmente curto e dialogado, que utiliza seres inanimados (como objetos, partes do corpo ou elementos da natureza) dotados de fala, que ganham vida, falam e agem como humanos para transmitir uma lição moral ou ética e criticar comportamentos e valores da sociedade.

A agulha disse à linha: “Repara que essa distinta costureira só se importa comigo, eu vou aqui entre os dedos dela, abaixo e acima” ... e ouviu como resposta: “diga-me, quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e vai dançar enquanto você, agulha, volta para a caixinha da costureira?” Um alfinete, que a tudo assistia, murmurou à pobre agulha: “Anda, aprende, tola. Abres caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam, fico”.

Aquele apólogo, breve e espirituoso, dando voz a objetos do cotidiano, cria uma narrativa cheia de humor e observação, mostrando a discussão entre uma agulha e uma linha sobre qual das duas é mais importante e útil na confecção de um vestido, metáfora genial para a vaidade humana, nos mostrando que sempre haverá quem se ache superior, tirando vantagem ou até menosprezando o trabalho ou a função do outro.

Dito isso, revelo que meu texto preferido é "Quem conta um conto...", publicado entre fevereiro e março de 1873 no Jornal das Famílias. O título faz uma alusão direta ao conhecido ditado popular "quem conta um conto, aumenta um ponto", resumindo perfeitamente a dinâmica da narrativa machadiana sobre a distorção da verdade e a construção de boatos ou fofocas na sociedade. E define com ironia: “a briga de galos é o Jockey Club dos pobres”. Procure pelo conto na internet, ou nos livros dele.

A genialidade de Machado de Assis talvez esteja justamente em sua capacidade de fazer o leitor refletir sem impor respostas. Mais de um século após sua partida os seus personagens continuam vivos, suas críticas permanecem atuais e sua escrita desafia cada nova geração a enxergar além das aparências. Leia Machado e descubra que a boa literatura nunca perde sua força e que a natureza humana muda muito menos do que imaginamos.

Seja por meio da ironia refinada, da sutileza psicológica ou da habilidade de transformar situações comuns em profundas reflexões sobre a sociedade, Machado de Assis permanece como um escritor inesgotável. Talvez seja esse o maior privilégio de seus leitores: sempre haverá um novo conto, um novo romance ou uma nova frase capaz de surpreender, provocar e revelar que, nas páginas do Bruxo do Cosme Velho, ainda existem inúmeras descobertas à espera de quem se dispõe a ler.

Curiosidades sobre outros escritores

"O machado era de Assis. A rosa, do Guimarães. A bandeira, do Manuel. Mas, feliz mesmo é o Jorge, que era amado."

Ariano Suassuna (João Pessoa - PB, 1927) nasceu nas dependências do Palácio da Redenção, pois seu pai era o governador da Paraíba. Evitava os computadores para criar seus textos, considerando o ato de digitar "meio desumano" e preferia a conexão íntima do papel e da caneta. Para escrever "O Auto da Compadecida" baseou-se na literatura de cordel. A obra, ambientada no sertão nordestino, mistura comédia e religiosidade, narrando as astúcias de Chicó (o covarde contador de causos, mas de bom coração) e João Grilo (o sertanejo pobre, extremamente inteligente e astuto).

Carlos Drummond de Andrade (Itabira - MG, 31/10/1902), o poeta maior era um rebelde que ajudou a tocar fogo num bonde em protesto contra o aumento do ingresso do cinema de Belo Horizonte. Tinha a mania de picotar papel e tecidos, e justificava: “Se não fizer isso, saio matando gente pela rua”.                                                                                                                                            

Cecília Meireles (Rio de Janeiro - RJ, 07/11/1901) é considerada a maior poetisa da língua portuguesa. Estando em Lisboa marcou um encontro com o poeta Fernando Pessoa no Café A Brasileira e esperou em vão por horas a fio. Ao voltar para o hotel a esperava um livro, autografado pelo autor lusitano, justificando que pela manhã, ao ler o horóscopo, ele concluiu que não era um bom dia para o encontro.

Guimarães Rosa (Cordisburgo - MG, 27/06/1908) nunca esteve no sertão (“meu sertão é metafísico”), mas descreveu em minúcias fauna, flora e topografia da paisagem sertaneja em “Grande sertão: veredas”. Ao tomar posse na ABL disse: “As pessoas não morrem, ficam encantadas”. E morreu três dias depois...

Mário Quintana (Alegrete - RS, 30/07/1906) ao ser questionado por um jornalista sobre o motivo de nunca ter se casado, respondeu com ironia: "Prefiro ser a esperança de muitas do que a desilusão de uma só". Certa vez, após ser atropelado, perguntou: “Anotaram a placa?” Explicaram que o atropelador o havia socorrido, e respondeu: “Vocês não estão entendendo, quero saber a placa para jogar no bicho”. Um diretor de jornal o elogiou: “gostei muito dos seus versinhos” e ouviu como resposta: “Obrigado por sua opiniãozinha”.

Monteiro Lobato (Taubaté - SP, 18/04/1882), o genial criador do Sítio do Picapau Amarelo e do Jeca Tatu (símbolo do caipira abandonado à miséria pelo governo), formou-se em Direito na Faculdade do Largo São Francisco, em São Paulo, mas garantia ter aprendido mais nas salas de cinema que na sala de aula.


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