Curso de Psicologia da Unoesc Joaçaba realiza 2ª Cerimônia do Botton |
por Antonio Carlos “Bolinha” Pereira, catarinense
♪♪ ♪♪ I don’t want to stay here, I wanna to go back to Bahia (Não quero ficar aqui, eu quero voltar pra Bahia), cantava o pernambucano Paulo Diniz em 1970.
O baiano que nasce em Salvador pode usar o gentílico “salvadorense”, ou “soteropolitano”, palavra criada em 1817 pelo padre e geógrafo português Manuel Aires de Casal, que é uma junção de termos do grego antigo: Sotero significa Salvador, Polis significa cidade e o sufixo Ano indica origem ou pertencimento. A capital do estado da Bahia foi a primeira capital do Brasil Colonial, sediando o Governo-Geral por mais de dois séculos, ainda com o nome “São Salvador da Baía de Todos os Santos”. Fundada em 1549 por Tomé de Sousa, é um dos principais centros da cultura afro-brasileira e possui forte relevância histórica, turística e gastronômica.
Famosa pelo Carnaval de rua, Salvador oferece pontos turísticos e culturais, como o Pelourinho, centro histórico com ladeiras coloridas e arquitetura barroca; o Farol da Barra, localizado no Forte de Santo Antônio da Barra, ponto famoso para ver o pôr do sol; o Elevador Lacerda, primeiro elevador urbano do mundo, ligando a Cidade Baixa à Cidade Alta. A culinária da Bahia é rica e famosa por misturar tradições africanas, indígenas e portuguesas, usando muitos temperos fortes, azeite de dendê, leite de coco e camarão seco.
Como cantou o compositor baiano Dorival Caymmi: “♪♪ ♪♪ Ah, que saudade eu tenho da Bahia! Ah, esta saudade dentro do meu peito”. Reflita comigo, prezado leitor: você já sentiu saudade de algum lugar que não conhece, no qual nunca esteve? Pois eu sinto uma saudade enorme da Bahia... nunca fui lá, mas é como se eu conhecesse as 365 igrejas de Salvador e apreciasse o trabalho das baianas ao fazerem a lavagem das escadarias da Igreja de Nosso Senhor do Bonfim, com seus trajes típicos: turbantes, saias engomadas, braceletes e colares, carregando vasos com água de cheiro. Todas se vestem de branco, cor de Oxalá, o deus Yorubá, compondo o sincretismo religioso.
Dizem que “baiano não nasce, estreia”. Em 30 de abril de 1914 Dorival Caymmi nasceu — ou estreou — na capital da Bahia, e no ano de 1939 em dueto com Carmen Miranda gravou uma composição própria: “O que é que a baiana tem”. E correu o mundo cantando os balangandãs, termo que ele popularizou para indicar aquele adorno que as pretas baianas usam em dias de festa, penduradas em penca, num tipo de argola decorada, com diversas peças, como figas, medalhas, chaves, dentes de animais.
Dono de uma voz de timbre grave, registro lírico de baixo cantante, Caymmi teve influência familiar — a mãe cantava e o pai tocava bandolim, piano e violão. Ao casar com ele em 1940 a cantora Stela Maris, nome artístico da mineira Adelaide Tostes, abandonou a carreira de forma espontânea para dedicar-se exclusivamente à vida familiar e à criação dos três filhos do casal — todos são do meio artístico: Danilo, o caçula, é parceiro de Edmundo Souto e Paulinho Tapajós em “Andança” (♪♪ ♪♪ por onde for, quero ser teu par...); o mano Dori compôs “Saveiros” com Nelson Motta, música que consagrou Nana no primeiro Festival Internacional da Canção (FIC), em 1966. No ano seguinte, acompanhada pelos Mutantes, ela cantou "Bom dia", composta em parceria com o marido Gilberto Gil. Nana gravou “Acalanto” com o pai e com ele todos participaram de shows lançados em discos e em vídeos disponíveis na internet.
“Andei com meu canto os caminhos do mundo, mas nunca estive longe da Bahia. Ela ia comigo no meu peito, pois estava dentro de mim e em minha canção eu a revivia. Sou um compositor, um cantor da Bahia, nunca desejei ser outra coisa.”
Mesmo radicado no Rio de Janeiro desde 1938, ele cantou a terra natal como nenhum outro baiano. E eles são muitos: Antonio Carlos e Jocafi, Caetano Veloso, Capinam, Carlinhos Brown, Ederaldo Gentil, Gal Costa, Gilberto Gil, Hyldon, João Gilberto, Luiz Caldas, Marcelo Nova, Maria Bethania, Moraes Moreira, Pepeu Gomes, Raul Seixas, Tom Zé, Waldick Soriano.
O consagrado escritor baiano Jorge Amado chamava Caymmi de “cantor das graças da Bahia”, e o famoso escritor chileno Pablo Neruda definiu: “Com voz doce e profunda, Caymmi leva saudade da Bahia por todo o céu do Brasil.”
“Só quero que me deixem ficar no meu ritmo. Num dia bonito qualquer, sair com a chave no bolso, caminhar em direção à praia, conviver e conversar com desconhecidos. A pessoa é o enfeite da vida”, ele dizia.
Dorival morreu em 16 de agosto de 2008 e Stella 11 dias depois, sem saber da partida do marido. Ao falecer com 94 anos, o Velho Caymmi sabia que deixava muita música boa: a própria infância que ele recordava em “Suíte dos Pescadores” (♪♪ ♪♪ Minha jangada vai sair pro mar, vou trabalhar, meu bem querer. Se Deus quiser quando eu voltar do mar um peixe bom, eu vou trazer... Meus companheiros também vão voltar e a Deus do céu vamos agradecer); “Maracangalha” (que me transporta de volta à minha própria infância), “Marina”.
E mais, muitas mais: “Samba da minha terra (♪♪ ♪♪ Quem não gosta de samba, bom sujeito não é; é ruim da cabeça, ou doente do pé), João Valentão, “Peguei um ita no Norte”, “Oração de Mãe Menininha”, “Eu não tenho onde morar”, “Modinha para Gabriela” (♪♪ ♪♪ eu nasci assim, eu cresci assim, eu sou sempre assim, sempre Gabriela), além de “Maricotinha”, uma das últimas, que ele levou uns dez anos para concluir, na cadência própria de valorização do tempo e do bem-estar típicos do baiano. Suas letras parecem sempre atuais, temas universais e perenes: a vida, os amores, a morte. E fico meditando no samba-convite que ele fez em 1941: Você já foi à Bahia, nego? Não? Então, vá!
Vá, mas lembre que a Bahia apresenta altos índices de violência em comparação aos demais estados brasileiros: ocupa a segunda colocação nacional em taxas de mortes violentas e abriga metade das dez cidades com mais de 100 mil habitantes que apresentam as maiores taxas de mortes violentas no território nacional.
Enquanto críticos apontam a omissão ou lentidão do Estado, governado pelo Partido dos Trabalhadores (PT) de forma ininterrupta desde 2007, defensores e moradores ressaltam que a violência se concentra em pontos específicos de rivalidade pelo controle de rotas locais do tráfico de drogas, coexistindo com a rica herança cultural baiana. Apesar dos problemas estruturais de segurança, o estado, famoso pela forte fé católica e pelas ricas tradições das religiões de matriz africana, mantém um fluxo intenso de turismo em suas regiões litorâneas e históricas.
Então, quando for pra Bahia, peça a proteção de todos os santos!
A Bahia é mais que um destino turístico: é um estado de alma, uma poesia que se sente, uma canção que nunca sai do coração. Mesmo sem tê-la vivido com os pés na areia ou provado seus sabores à beira-mar, a Bahia já faz parte de mim — nas histórias que escuto, nas músicas que tocam fundo e nos aromas que despertam lembranças inventadas e, ainda assim, verdadeiras.
Sentir saudade do que nunca foi vivido é um sentimento real e profundo que mistura imaginação, desejo e nostalgia, uma vontade de viver algo que só existiu nos sonhos ou expectativas, um sentimento ligado à idealização, à imaginação e que tem uma definição estranha: anemóia, nostalgia por tempos ou vidas que não tivemos, pois o cérebro humano consegue criar expectativas fortes e laços afetivos com cenários imaginários intensos, então é totalmente possível sentir saudade de algo que nunca aconteceu. Que essa saudade — doce e inexplicável — continue me inspirando a sonhar, a amar e a acreditar na beleza do mundo. Porque, no fundo, a anemoia nos lembra que a vida também é feita de desejos que nos movem. Quem sabe essa saudade se transforme em realidade, e eu possa um dia dizer: “Ah, que saudade eu tinha da Bahia...”
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