SAMAE adquire três novos veículos para reforçar serviços em Campos Novos |
Antonio Carlos “Bolinha” Pereira, folião desde criancinha
A Assembleia Legislativa de Santa Catarina proclamou Joaçaba como a Capital do Carnaval Catarinense. Um reconhecimento oficial que coroa décadas de trabalho, dedicação e amor à folia. Se me permitem a observação, trata-se de uma homenagem que chega com certo atraso histórico, pois muitos dos grandes incentivadores dessa trajetória já não estão entre nós para celebrar. Homens visionários como Carlos Adão Tratsk, o inesquecível Carlão, um dos fundadores da Unidos do Herval; Carlos Fett, que elevou a Aliança a um patamar de grande expressão artística; João Paulo Dantas, pesquisador dedicado e entusiasta da Vale Samba — entre tantos outros que transformaram sonho em espetáculo e plantaram as sementes da excelência que orgulha Joaçaba.
Muitos afirmam que o desfile das escolas, uma “ópera” encenada ao ar livre, seria “o maior espetáculo da terra”, pois os desfiles de rua atraem turistas e muito público, pela grandeza do espetáculo. Porém, reflita: passamos horas a fio sentados em arquibancadas desconfortáveis, enfrentando frio ou calor, aguardando a passagem das agremiações pela avenida. Mas talvez o encanto não esteja no conforto — esteja na emoção coletiva. No arrepio que percorre o corpo quando o primeiro surdo ecoa. No brilho dos olhos ao ver a comissão de frente abrir os trabalhos. No orgulho de ver a comunidade representada em cores, alegorias e enredos que contam histórias com arte e criatividade.
Mas eu gostava era do carnaval de salão. Houve um tempo em que os clubes eram o coração da folia e rivalizavam em atrações, com orquestras se revezando no palco sem dar descanso aos foliões. As marchinhas embalavam paqueras discretas, namoros que viraram casamento, amizades que atravessam décadas. As matinês enchiam-se de crianças fantasiadas nas tardes de domingo e da “terça-feira gorda”, aprendendo desde cedo o gosto pela alegria compartilhada.
Era um carnaval mais íntimo, mais familiar, onde todos se conheciam pelo nome em uma diversão inocente, coletiva, que fortalecia laços comunitários. Era muito bom “pular” o carnaval no salão, com muito confete e serpentina sendo jogados para o alto, levantando o astral dos foliões. Uma diversão inocente compartilhada pelas famílias, como no sábado passado quando os sócios do Clube Ateneu e convidados relembraram, com nostalgia, os tempos das antigas marchinhas com a Banda Café Brasil, formada por músicos aqui de Capinzal, garantindo uma noite especial ao público ao reviver o tradicional Carnaval de Salão, em clima familiar, como este jornal mostrou com exclusividade.
Quem viveu aqueles tempos guarda no coração a trilha sonora que marcou gerações. O apogeu das marchinhas coincidiu com a era de ouro do rádio, entre as décadas de 1930 e 1950. As vozes de Carmen Miranda, Dalva de Oliveira, Emilinha Borba, Carlos Galhardo, Orlando Silva e outros tantos ecoavam pelos lares brasileiros, eternizando composições que ainda hoje sabemos cantar. Com o passar do tempo, os sambas-enredo ganharam protagonismo — mais longos, mais técnicos, pensados para a competição, com letras quilométricas e ritmos difíceis de assobiar — e as marchinhas foram, pouco a pouco, ficando restritas à memória afetiva.
Cantar “Ó abre alas”, “Mamãe eu quero”, “Bandeira Branca”, “Cidade Maravilhosa” é mais do que entoar uma música: é reviver um tempo, é reconectar-se com quem fomos. É perceber que o carnaval é múltiplo — cabe na avenida grandiosa, cabe no salão ornamentado, cabe na lembrança embalada por nostalgia. Porque, enquanto houver memória, música e gente disposta a sonhar, haverá carnaval.
E quem me dera viver para ver — e brincar — muitos outros carnavais e fazer coro ao Poetinha, na Marcha da 4ª Feira de Cinzas: “Acabou nosso carnaval e, no entanto, é preciso cantar e alegrar a cidade”. Quem lembra dessas marchinhas, cante comigo:
Ó abre alas que eu quero passar eu sou da Lira, não posso negar. Ó, abre alas, que eu quero passar Rosa de Ouro é que vai ganhar;
A Estrela Dalva no céu desponta e a lua anda tonta com tamanho esplendor e as pastorinhas pra consolo da lua vão cantando na rua lindos versos de amor;
O teu cabelo não nega mulata, porque és mulata na cor. Mas como a cor não pega, mulata, mulata, eu quero o teu amor;
Menina, Vai, com jeito vai senão um dia a casa cai;
Mulata bossa nova caiu no Hully-Gully e só dá ela Iê-iê-iê-iê na passarela;
Olha a cabeleira do Zezé, será que ele éserá que ele é? será que ele é bossa nova? será que ele é Maomé? parece que é transviado mas isso eu não sei se ele é corta o cabelo dele;
Sassassaricando, todo mundo leva a vida no arame, sassassaricando o brotinho, a viúva e a madame. Quem não tem seu Sassarico, sassarica mesmo só, porque sem sassaricar essa vida é um nó;
Nós os carecas, com as mulheres somos maiorais pois na hora do aperto é dos carecas que elas gostam mais;
Tomara que chova três dias sem parar. A minha grande mágoa é lá em casa não ter água, eu preciso me lavar;
Yes, nós temos bananas, bananas pra dar e vender, banana, menina, tem vitamina, banana engorda e faz crescer;
Allah-lah-ô, mas que calor ô-ô-ô-ôôô atravessamos o deserto do Saara o sol estava quente e queimou a nossa cara;
Vém cá, seu guarda, bota pra fora esse moço que está no salão brincando com Pó-de-mico no bolso! foi ele! foi ele sim! foi ele quem jogou o pó em mim;
Eu fui às Touradas em Madri e quase não volto mais aqui pra ver Peri beijar Ceci. Eu conheci uma espanhola natural da Catalunha, queria que eu tocasse castanhola e pegasse touro à unha. Caramba! Caracoles! sou do samba, não me amoles pro Brasil eu vou fugir! isso é conversa mole para boi dormir;
Mamãe eu quero, mamãe eu quero, mamãe eu quero mamar! dá a chupeta, dá a chupeta pro bebê não chorar;
Ei você aí, Me dá um dinheiro aí! me dá um dinheiro aí! não vai dar? não vai dar não? você vai ver a grande confusão que eu vou fazer bebendo até cair;
Chegou A Turma do Funil todo mundo bebe mas ninguém dorme no ponto, nós é que bebemos e eles que ficam tontos, morou. Enquanto houver garrafa, enquanto houver barril, presente está a turma do funil;
As águas vão rolar, garrafa cheia eu não quero ver sobrar, eu passo a mão na saca, saca, Saca-rolha e bebo até me afogar, deixa as águas rolar;
Foi numa casca de banana que pisei, pisei, escorreguei, quase caí, mas a turma lá de trás gritou: Chi! Tem nêgo bêbo aí;
Lá vem o cordão dos puxa-sacos dando vivas aos seus maiorais quem está na frente é passado pra traz e o cordão dos puxa-sacos cada vez aumenta mais;
Quem sabe, sabe conhece bem como é gostoso gostar de alguém. Ai, morena, deixa eu gostar de você. Boêmio sabe beber boêmio também tem querer;
Você pensa que cachaça é água? Cachaça não é água, não: cachaça vem do alambique e água vem do ribeirão;
Daqui não saio daqui ninguém me tira onde é que eu vou morar? O senhor tem paciência de esperar! Inda mais com quatro filhos onde é que vou parar;
Eu vou pra Maracangalha, eu vou, eu vou de liforme branco, eu vou, eu vou de chapéu de palha, eu vou, eu vou convidar Anália, eu vou, se Anália não quiser ir eu vou só;
Recordar é viver eu ontem sonhei com você. Eu sonhei meu grande amor que você foi embora e logo depois voltou;
Bandeira Branca amor, não posso mais, pela saudade que me invade eu peço paz.Saudade, mal de amor, de amor saudade, dor que dói demais vem, meu amor bandeira branca, eu peço paz;
Foi bom te ver outra vez tá fazendo um ano foi no carnaval que passou. Eu sou aquele pierrô que te abraçou que te beijou, meu amor. Na mesma máscara negra que esconde o teu rosto eu quero matar a saudade vou beijar-te agora não me leve a mal hoje é carnaval;
Não posso ficar nem mais um minuto com você. Sinto muito amor, mas não pode ser. Moro em Jaçanã, se eu perder esse trem que sai agora às onze horas, só amanhã de manhã;
Ó Jardineira por que estás tão triste, mas o que foi que te aconteceu? Foi a camélia que caiu do galho deu dois suspiros e depois morreu. Vem jardineira vem meu amor não fique triste que este mundo é todo teu, tu és muito mais bonita que a camélia que morreu;
Tristeza por favor vai embora a minha alma que chora está vendo o meu fim. Fez do meu coração a sua moradia, já é demais o meu penar, quero voltar àquela vida de alegria quero de novo cantar;
Um Pierrô apaixonado que vivia só cantando, por causa de uma colombina acabou chorando;
Hoje eu não quero sofrer, hoje eu não quero chorar. Deixei a tristeza lá fora mandei a saudade esperar. Quero me afogar em serpentinas quando ouvir o primeiro clarim tocar;
Este ano não vai ser igual àquele que passou, eu não brinquei você também não brincou. Este ano tá combinado nós vamos brincar separados! São três dias de folia e brincadeira, você pra lá e eu pra cá, Até quarta-feira;
Ai ai ai ai, Tá chegando a hora, o dia já vem raiando meu bem e eu tenho que ir embora...
Sim, está chegando a hora, mas ainda há tempo para cantarmos juntos a campeã de todos os carnavais:
Cidade maravilhosa, cheia de encantos mil, cidade maravilhosa, coração do meu Brasil!
O TEMPO jornal de fato desde 1989:
https://chat.whatsapp.com/IENksRuv8qeLrmSgDRT5lQ
https://www.facebook.com/aldo.azevedo.5/
https://www.facebook.com/otempojornaldefato/
O Tempo de fato (@otempojornalfato) - Instagram
https://www.youtube.com/@otempojornaldefato
Deixe seu comentário