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O TEMPO DE FATO

CANETADAS E CANELADAS.

Por Jaime Telles

Pelos gramados do poder, o Brasil disputa uma partida que parece nunca terminar. De escândalo em escândalo, o juiz parece ter esquecido o cartão vermelho no vestiário. A cada nova investigação, denúncia ou suspeita envolvendo recursos públicos, cresce a sensação de que a corrupção deixou de ser uma falta ocasional para se transformar em estratégia de jogo. E, mesmo quando o lance vai para o VAR, nem sempre o resultado muda. Poucas democracias suportariam tantas entradas duras sem comprometer a confiança em suas instituições.

O telão da memória não deixa apagar os lances mais vergonhosos. O Mensalão revelou um esquema de compra de apoio político. O Petrolão escancarou desvios bilionários em uma das maiores estatais do país. O placar ainda registra fundos de pensão saqueados, estatais aparelhadas, obras superfaturadas, contratos sob suspeita, emendas contestadas e sucessivas operações policiais. Como se não bastasse, novas investigações envolvendo o sistema financeiro, contratos públicos e agentes políticos mostram que o campeonato está longe do apito final.

Com o tempo, formou-se uma verdadeira seleção. O fisiologismo veste a camisa 10, o aparelhamento domina o meio-campo e a confusão entre interesses partidários, governo e patrimônio público joga pelas pontas. A corrupção deixou de ser um lance isolado para se tornar uma tática repetida, treinada e aperfeiçoada.

A escalação quase nunca muda. Há atacantes encarregados de concluir as jogadas, defensores especializados em afastar responsabilidades, cartolas influentes e uma torcida organizada que insiste em aplaudir seu time mesmo quando a falta é evidente. O técnico não aparece à beira do campo. Seu esquema tático é conhecido por todos, mas ele mesmo, ninguém sabe ao certo quem é.

Houve momentos em que a marcação apertou. Investigações alcançaram figuras poderosas, empresários e agentes públicos responderam à Justiça e parecia que, enfim, o jogo começava a mudar. Depois vieram recursos, anulações, revisões de placar e interpretações jurídicas que dividiram opiniões. Independentemente da leitura de cada um, ficou entre muitos brasileiros a sensação de que a partida terminou sem que a sociedade pudesse comemorar uma vitória definitiva.

Apesar disso, o Brasil continua correndo. Trabalha, produz, alimenta o mundo e sustenta uma pesada máquina pública. É inevitável imaginar onde estaríamos se bilhões desperdiçados com corrupção, desperdício e má gestão fossem convertidos em hospitais, escolas, estradas, segurança e oportunidades.

O país não pode continuar tratando corruptos como ídolos de estimação nem relativizando desvios conforme a cor da camisa. Corrupção não joga pela direita nem pela esquerda; joga sempre contra. Uma democracia saudável precisa de árbitros independentes, de um VAR que funcione, de imprensa livre, de órgãos de controle fortalecidos e de uma torcida que saiba vaiar a falta, independentemente de quem a tenha cometido.

Se aceitarmos que cada novo escândalo seja apenas mais um lance normal da partida, continuaremos em campo, mas jogando sempre na retranca. Um país com potencial para disputar a final continuará preso a um campeonato de caneladas, catimba e prorrogações intermináveis, enquanto o verdadeiro campeão — o povo brasileiro — segue impedido de levantar a taça.


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