por Antonio Carlos “Bolinha” Pereira, 75 anos
Qual a melhor música de cada LP do Roberto nos anos 80? O meu amigo Leandro Lima lançou um desafio aos “Roberteiros e Roberteiras”, na página do Facebook Colecionadores De Midia Física (Vinil, K7 E CD): escolher as que se transformaram em clássicos da MPB. Leandro comenta: “Analisar Roberto Carlos e qualquer obra dele é deveras complicado, pois o peso é enorme — estamos falando de um cantor consolidado há mais de 60 anos e que até hoje insiste em apresentar-se em concertos solenes. Sabe, quando vou classificar um disco, uma canção, levo muito em conta o que temos no mercado hoje em dia e, sinceramente, repito: a pior música do RC é melhor que a maioria dos lançamentos do nosso tempo!
Confira o resumo da década de 80 segundo o paulistano Leandro:
1980 — Amante à moda antiga
1981 — Tudo pára
1982 — Fera ferida
1983 — O amor é a moda
1984 — Eu e ela
1985 — De coração pra coração
1986 — Amor perfeito
1987 — Ingênuo e sonhador
1988 — Como as ondas do mar
1989 — Sonrie (versão castelhana de “Smile”, de Charlie Chaplin, tema clássico do filme “Tempos Modernos” 1936)
Muitos dividem a carreira de RC em duas eras primordiais, uma até 1978 e outra até a atualidade. Vamos aos álbuns:
(ROBERTO CARLOS LP 1980) — Guerra dos meninos retrata claramente o Espírito Santo, em forma de menino, adentrando a casa de Roberto. É uma ode ao louvor crescendo e contagiando, com ares do sermão na montanha que muitos subiram para ouvir as palavras de Jesus. Cada refrão cantarolado tem mais consistência que o anterior, culminando num cenário de arrebatamento, com inimigos se abraçando e o fim de todas as coisas ruins. Crianças cantam como anjos, metais tocam como trombetas apocalípticas e nos levam mais perto de Deus para presenciar algo tão épico quanto essa música sugere.
Música de Djavan A ilha traz a intelectualidade peculiar do compositor. A música tem ótimo instrumental com a orquestra fazendo um contorno fantástico com a banda, o baixista aqui consegue inundar a música e o Roberto passeia com tranquilidade nessa faixa impondo sua voz única.
Amante à moda antiga te veste num terno bem passado como um Casanova tradicional e a roupagem de um jazz sofisticado, lembrando que o amor jamais fica fora de moda.
Roberto Carlos (1981) — O disco começa com louvor: Ele está pra chegar. Letra alarmista sobre a volta de Jesus Cristo, bastante atual, linda e necessária em qualquer tempo e ocasião, chamando as pessoas a se prepararem. Corais de Aleluia enfeitam o final da música no capricho.
Um canto mais introspectivo e indignado do cantor num clima digno de “Greenpeace”, com o som de calmas ondas batendo nas pedras, ao falar do maior mamífero do mundo: As Baleias. O que gostei aqui foi a saída poética da música, que não é piegas nem tão óbvia, um puxão de orelha muito bem dado e o refrão que menciona gerações futuras simplesmente chama à reflexão.
A seguinte é clássica, Cama e mesa conta com alguns metais. Tudo devidamente enfeitado pela voz de RC que te serve um refrão conclusivo e surpreende trabalhando esse refrão até o fim da canção. Genial!
Se a última música é clássica, Emoções é o que então? Uma das mais lindas do Roberto, ela cresce no estilo Sinatra/Broadway com louvor. Valeria o álbum todo só o capricho dessa música e a ousadia em criar um verdadeiro musical em pouco mais de 4 minutos.
ROBERTO CARLOS (1982) — Um violão mais animado e um arranjo de flautas maravilhoso crava Fim de semana como raio de sol, letra que descreve o final de semana com a família, crianças, cachorro e o nível lá em cima. Que delícia de canção, ponto pro Roberto que no final ainda agradece a Deus pelos momentos vividos. No final crianças ainda cantarolam lá lá lá lá, fenomenal!
Meus amores da televisão faz lembrar programas de TV com letra divertida, música extrovertida e solo de gaita bem bacana embelezando a canção, cadência puxada ao country e clima lá em cima.
Fera ferida é um clássico e com razão! A música é bonita demais e a interpretação emocionada de RC só aumenta a beleza da composição assinada por ele junto com o saudoso Erasmo. A letra vai falando da condição guerreira de uma pessoa sofrida, ferida, mas que se dispõe a lutar. O refrão é hino e tem voz dobrada pra impor respeito.
ROBERTO CARLOS (1983) — Roberto inicia o disco com O Amor é a moda, uma canção simpática que retrata o jeito de se tratar a amada. O andamento é despojado, o refrão é bem legal e traz backing vocals diferentes, saxofone moendo e uma certeza: a cozinha provou o gostinho da New Wave por aqui.
RC tira da manga a música religiosa da vez e dessa vez, meus amigos, é uma das melhores. Estou aqui é lindíssima, uma oração a Deus, sofrida e buscando a Cristo como única solução possível. A música cresce aos poucos e tem arranjos perfeitos, pianos agradáveis e melodia excelente. Você sente a sinceridade em cada palavra e abordagem. Que capricho! O refrão é forte e conclusivo em tom de clamor. Que interpretação! Obra prima!
Perdoa traz metais sensualíssimos… sério, coloque o início da música e monte uma cena de cinema. O clima é de jazz, e o tom agradável. Uma boa canção que visita áreas etéreas do pensamento. Aqui as influências de Frank Sinatra gritam o mais alto possível e com extremo bom gosto.
ROBERTO CARLOS (1984) — Um piano simpático traz uma boa melodia em Aleluia. Refrão cantado em coro lindíssimo, Roberto sabe louvar sem exageros e na poesia reconhece todo mérito de Deus, uma perfeição. A música passa um clima épico, corais caprichados transcendem a espiritualidade, com cantoras louvando ao estilo das igrejas das terras do Tio Sam.
Caminhoneiro, letra escrita por Roberto em parceria com Erasmo Carlos sobre a melodia “Gentle on my mind” do americano John Hartford — que teve o nome “esquecido” no selo do disco do Roberto e mais tarde acrescentado — evitando um possível processo por plágio. A música fez história por ter sido executada 3.287 vezes em emissoras de rádio de todo o país entre as 7h e 19h no dia de seu lançamento, 19 de novembro de 1984. O feito histórico abriu caminho para uma série de recordes consecutivos do "Rei" nas paradas brasileiras. Homenagem àqueles que movimentam o país inteiro e tantas vezes ficam longe de suas famílias. Obrigado Roberto Carlos… realmente és eterno.
Daí o cara vem com uma cover dos Beatles. “And I love her”, de 1964, vira Eu te amo, um clássico atemporal. Regravada em 1991 por Zezé Di Camargo & Luciano, foi tema da personagem Cidinha, interpretada por Vera Fischer, na novela Perigosas Peruas (exibida pela TV Globo em 1992).
ROBERTO CARLOS (1985) — O trabalho da banda é sensacional e a proposta do álbum é ser direto, sem firulas, bastante cadência de bateria. Verde e amarelo já começa propondo um country rock e a galera gritando o refrão. A letra, descritiva da enorme torcida, apela pro patriotismo a partir das cores principais da bandeira. É uma ode ao Brasil com excelente solo de guitarra.
Símbolo sexual é irreverente, cabe na época em que a New Wave era o prato do dia e se completa em A Atriz, com certeza inspirada em Miriam Rios, a esposa dele na época. Depois ele canta com efeito dobrado e dá um tempero especial na canção, seguindo um solo de sax sensacional, bem anos 80.
ROBERTO CARLOS (1986) — A primeira faixa começa com rock, e quando tem rock… daí eu me alegro! Apocalipse é uma letra alarmista que vem chamar a atenção pro último e definitivo livro da Bíblia. Fala sobre temas bem cabeludos acerca de pautas que são discutidas até hoje como drogas, violência, aborto. O som é direto e muito interessante, com solos incríveis de guitarra e um refrão diferente. Gostei muito, bem fora da curva, fiquei surpreendido verdadeiramente.
Do fundo do meu coração é clássica, bom instrumental e letra bem romantizada para corações suspirantes. Um refrão mais do que excelente, com backing vocals fascinantes.
Amor perfeito dispensa apresentações, é simplesmente maravilhosa. Se você não sentir o coração bater enquanto a ouve, pegue o desfibrilador e peça para um amigo te reanimar com a carga máxima, parece que tu já morreu por dentro...
ROBERTO CARLOS (1987) — Um balanço gostoso se inicia, algo na linha bem Tim Maia dos anos 80, com os metais dando as caras naquele estilo mais soul. Tô chutando lata é deveras legal, a abordagem musical é bacana. Gostei da sonoridade, o baixo tem um destaque sensacional.
Águia dourada vislumbra cenários de natureza em clima contemplativo. Bem bolada, bateu nostalgia aqui!
Todo mundo está falando, boa demais, versão brazuca de “Everybody’s Talking’”, tema do filme “Perdidos na noite” (Midnight Cowboy de 1969). A versão é bem legal e ritmada com honestidade, o riff dela é muito bom, suave e de melodia única.
O careta motivou processo de plágio e não foi pro CD. É uma música incrível que abrilhanta mais ainda o disco, aconselha os jovens a não usarem drogas “meu grande barato é o cheiro da brisa do mar... e fico contente de ser esse grande careta!” Uma cozinha pesada e cadenciada, baixo marcado e solos de guitarra sensacionais.
ROBERTO CARLOS (1988) — Se diverte e já não pensa em mim é fabulosa! Bonita e açucarada, refrão fantástico, floreios de guitarra aqui e acolá e o competente solo.
Papo de esquina, num estilo mais country, traz um divertido diálogo entre os parceiros de longa data, Roberto e Erasmo. Uma letra muito bem feita, bem de bar mesmo, com rimas espertas sobre dois amigos falando de suas novas conquistas amorosas e as descrições vão batendo tanto que ambos ficam desconfiados que seja a mesma mulher, vá correndo escutar, a canção é ótima!
Como as ondas do mar, em ritmo de valsinha, tem a assinatura de Carlos Colla e Marcos Valle, um petardo! O refrão é primoroso, a letra já começa te dilacerando o peito ao falar do significado de uma pessoa amada de forma singela ("Você foi a paixão que esqueci de esquecer: a lembrança mais doce, o sorriso mais lindo que alguém pode ter...”) e lembra “Outra Vez”. Mais adiante cita “Pra você”, composição do Silvio Cesar que o Roberto gravou em 1970 (Se eu fosse você eu voltava, não se deixa um amor lindo assim! Se eu fosse você, meu amor, como alguém já falou: eu voltava pra mim)
Se o amor se vai é outra excelente canção de amor que fala da ausência de amor nos relacionamentos. A canção vai aumentando o tom e essa modulação (mudança para uma escala musical mais alta) serve exatamente para dar mais emoção e intensidade à letra, que fala sobre a tristeza e o vazio que fica quando o amor termina.
ROBERTO CARLOS (1989) — A mensagem obviamente é ecológica: Amazônia, insônia do mundo! Claro que o apelo é ambientalista e calcado nas crenças de época e sobre os pormenores políticos melhor não falar… no mais, mensagens alarmistas sobre nosso ecossistema são vociferadas na letra.
Pássaro ferido… A música é ótima, embora ela tenha um pezinho em sertanejos modernos, se não se incomodar, vá curtir o sax que introduz a música e depois volta na metade, tem cara de anos 80.
Nem às paredes confesso fado mundialmente conhecido na voz de Amélia Rodrigues, porém no Brasil foi imortalizada por Nelson Gonçalves. Clássico absoluto que ganhou mais essa versão finíssima com o auxílio luxuoso do instrumental.
Ao longo dos anos 1980, Roberto Carlos mostrou que sabia acompanhar as transformações da música sem abrir mão da própria identidade. Experimentou novas sonoridades, aproximou-se do pop, do country, soul e da new wave; manteve viva sua inspiração religiosa e continuou oferecendo ao público canções românticas capazes de atravessar gerações. Gravou em espanhol, francês, inglês e italiano para o mundo ouvir. Cada disco refletiu seu tempo, mas todos preservaram a assinatura de um artista que nunca precisou seguir modismos para permanecer relevante.
Revisitar essa década é reencontrar melodias que marcaram histórias de amor, fé, esperança e saudade. Para quem viveu aqueles anos, é uma viagem repleta de lembranças; para os mais jovens, uma oportunidade de descobrir porque Roberto Carlos segue ocupando um lugar único na música brasileira. Afinal, algumas canções envelhecem. Outras, como as do Rei, simplesmente se tornam eternas.
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